Com o tempo você . . .

Alan Caldas 12/07/2019
(Por Alan Caldas)

(Por Alan Caldas)

Com o tempo você vai gostando e desgostando de tudo. E de todos.
Com o tempo você passa a não aceitar mais a ignorância alheia como “normal”.
Com o tempo você não aceita mais estender a mão aos que não quer mais ao seu redor.
Com o tempo você percebe que perdeu seu tempo tentando salvar quem nunca desejou ser salvo. E compreenderá que isso é que lhe fez melhor, com o tempo.
Com o tempo você vê que o amor tem várias faces, e nem de todas as faces do amor você gosta, com o tempo.
Com o tempo aquele parente chato se torna mais chato porque você o conhece bem.
Com o tempo aquele sexo ruim se torna pior ainda, mais igual, mais o de sempre, mais o mesma posição toda vez.
Com o tempo, os colegas perdem o brilho. E você não ganha brilho, com o tempo.
Com o tempo o que você considerava secretíssimo começa a parecer ridículo.
Com o tempo você reconhece a mentira nos gestos das mãos da pessoa, no olhar da pessoa, no andar da pessoa, no falar da pessoa.
Com o tempo, se lhe mentem já não faz diferença, porque você já não acredita mesmo.
Com o tempo o que você sentia pelos filhos se torna no mínimo estranho, para não dizer chato demais para continuar chamando isso de amor incondicional.
Com o tempo você vê a morte tão interessante quanto a vida.
Com o tempo o déspota lhe parece democrático. E o democrático lhe parece um zumbi. É a trapaça do tempo.
Com o tempo, você quer um filho pequeno, que ainda lhe diga palavras doces sem a compreensão do que o malefício da vida significa.
Com o tempo você vê a cidade de forma diferente, melhor que as demais, pior que todas as outras.
Com o tempo, as opções de lazer vão piorando, porque viraram comuns para você.
Com o tempo vem a dor.
Com o tempo vem o medo.
Com o tempo vai a ira.
Com o tempo a fúria se torna uma grande piada e você começa a se aconselhar com o tempo, percebendo que tudo que fez, faz ou fará não modificará para melhor a existência.
Há silêncio em você, com o tempo. E há uma imensa inteligência que vai se formando nos arredores do seu cérebro e contagiando seu corpo, infectando sua alma, abrindo valas de conhecimento desconhecido no seu agir, no seu pensar, no seu falar.
Com o tempo você não tem para onde voltar. E, pior, nem para onde ir, porque onde quer que vá ainda é em algum lugar ao redor do mesmo planeta que você já conhece por tê-lo cruzado tantas e tantas vezes.
Com o tempo as estrelas e o universo começam lentamente a parecer inexistentes. Com o tempo a filosofia se torna estéril, a arte se torna estéril, a teologia se torna estéril. E você passa a compreender o incompreensível, com o tempo.
Com o tempo o lugar familiar de onde você veio já não existe. Atrás de você não há mais ninguém. E sua árvore genealógica foi perdendo as folhas e já não nascem mais belas flores naqueles galhos que secaram no tempo.
Com o tempo, e isso é um grande mistério, o som de martelo no metal dos sinos vão causando uma incompreensível sensação de união entre o aqui e um além, que seu cérebro insiste em pensar que não existe.
Com o tempo você aceita ofensas que antes se transformariam em guerras e morticínios, porque então você sabia que vida e morte eram o mesmo, mas agora o tempo amaciou sua compreensão da realidade.
Com o tempo uma criança sorrindo lhe fará chorar de alegria. Com o tempo a lembrança do tempo em que você não conhecia o tempo lhe fará chorar, e chorar muito, também.
Com o tempo não há mãe. Nem pai. Nem tios e tias. Com o tempo nem irmão haverá. E você seguirá vertical num mundo que se transforma em algo que você não sabe dizer se queria ou não queria, se gostava ou não gostava, se aceitava ou não aceitava.
Com o tempo é você. Não é mais ninguém. As palavras de carinho, os gestos de afeto, as ofensas, tudo se tornará uma geleia real de atitudes e pensamentos, de atos e medos, de coragens, compreensões e incompreensões.
Com o tempo o corpo reagirá diferente porque os olhos verão de forma diferente e o cérebro compreenderá de forma diferente.
Com o tempo você ouvirá seu primeiro choro de nascimento. Ouça, é você chorando a entrada na vida. E, com o tempo, você sentirá as partículas do pó sobre seu corpo sendo devolvido ao tempo que assim como veio se foi em um pequeno momento do tempo.


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