Tomar banho já foi abrir o corpo para o diabo

Alan Caldas 16/08/2019
Por Alan Caldas – Editor

Por Alan Caldas – Editor

Hoje achamos natural nos banhar todo dia. Mas quando Dois Irmãos se emancipou, 60 anos atrás, tomar banho era só uma vez por semana. Aos sábados. Temos vários relatos disso, no Jornal Dois Irmãos Especial que fizemos em homenagem aos 50 anos da cidade, e no qual ouvimos depoimentos de pessoas que em 1959 tinham 20 ou 30 anos.
O fato é que banho sempre foi coisa complicada. Agora mesmo o é. Basta um friozinho polar mixuruca descer sobre nós, e já reclamamos de banho. Mal sabemos que, no passado, o banho foi considerado pecado e caminho para o Inferno. Isso ocorreu quando o Papa Gregório proibiu terminantemente os cristãos de tomar banho. 
Gregório foi um papa genial e doutor da Igreja, mas cometeu essa barbaridade ouvindo os médicos que o assessoravam. É que os “físicos”, como se chamavam os médicos na época dele, lhe informaram que banho abria os poros. E a teologia da Idade Média, sempre tremendo de medo do capeta, levou o Papa Gregório a crer que se o demônio entrava por todo e qualquer orifício humano, ele obviamente entraria pelos poros quando a pessoa se banhava. E pronto. Deu no que deu. Por mais de mil anos o banhou ficou proibido aos cristãos. 
Chegaram a ensaiar uma ideia de tomar 1 banho por ano, num barril fechadinho e em jogo rápido. Também imaginaram o “direito” de fazer a “limpeza íntima” bem ligeiro com um paninho úmido. Mas o que se viu, mesmo, foi a Europa inteira enterrada em fedentina, piolhos e pestes advindas da sujeira. 
O pior é que a proibição do banho sobreviveu para muito além da morte do Papa Gregório. Durou por mais de mil anos entre os cristãos. E esta é uma das razões, por exemplo, que nos castelos de reis cristãos na Europa não existe nem nunca existiu banheiro. Quando você for lá, procure um banheiro, uma capungazinha que seja naqueles palácios imensos e não vai encontrar. 
Versailles, em sua imensidão tão linda e tão rica, vivia entre excrementos. Os historiadores relatam que urina e fezes de reis e mesmo de criados eram jogadas nos próprios corredores do palácio. Dá para acreditar nisso? 
Em Londres, todas as fezes das casas eram lançadas nas ruas. O odor, moscas e vermes eram insuportáveis, e uma vez por semana largavam varas de porcos para fazer a “coleta”, comendo os excrementos e limpando as ruas londrinas. 
Não tomar banho era a regra. E o mesmo valia para limpar os dentes. São Francisco de Assis, conforme narra a história, tomou um único banho em sua vida. O mesmo aconteceu com Maria Antonieta e todos os outros daquela volta do tempo, famosos ou não. 
Napoleão Bonaparte, o genial general e Imperador de França, quando voltava das campanhas mandava um mensageiro dias à sua frente pedindo para que sua amada Josefina “não tomasse banho”, pois ele estava retornando e a queria com o aroma que era “só dela”. Josefina, porém, era latina, visto que nasceu e se criou na Martinica, ali no Caribe, tendo desde cedo se acostumado a nadar no mar das três ilhas, e tinha, segundo diziam, o “mau costume” de banhar-se fartamente para ficar limpinha, cheirosinha e gostosinha.


Antes da proibição do banho, os europeus se banhavam. Mas quando o mundo virou teocêntrico e o Papa Gregório, ouvindo seus médicos e teólogos inventou essa doidice de que o diabo entrava pelos poros, o que se viu foi uma murrinha só, de Leste a Oeste naquele continente. 
Se lembrarmos do descobrimento do Brasil, Pero Vaz de Caminha, o jornalista das naus de Cabral, já relatava ao rei em Portugal que os silvícolas tinham uma “estranha mania” de se banhar várias vezes ao dia. Séculos depois, quando a família real veio ao Brasil, ainda não tomavam banho e os miseráveis nobres chegaram aqui com piolhos correndo pela cabeça e corpo.
Os povos tomavam banho. O elemento água sempre foi amiga da humanidade. No Egito, relatos de 3 mil anos atrás dão conta que o banho era ritual e visava purificar o corpo e a alma do indivíduo. E os egípcios chegavam a tomar três banhos por dia, fato que comprovadamente os livrou de pragas e epidemias que atingiram e quase dizimaram outros povos da Antiguidade. 


Quando os árabes chegaram na Europa, eles não ensinaram só filosofia e matemática aos povos que dominaram. Ensinaram mulheres a usar calcinha, que não usavam, e homens a usar cuecas. Mas sobretudo ensinaram a tomar banho. A ter água potável. E, ainda hoje a engenharia hidráulica na Espanha, onde os mouros foram importantíssimos por séculos, ainda tem influência árabe. 
Quem vai a Granada se encanta com o Palácio de Alhambra, uma relíquia árabe tombada no Patrimônio Histórico Mundial. Mas o que mais encanta ali são os córregos de água, os banheiros e as áreas de banho público que existiram naquele local durante quase 3 séculos em que, no restante da Europa, ninguém tomava banho. Banho era uma tradição turco-árabe, através dos hamans, uma espécie de “Spa” onde árabes se banhavam, faziam sauna, recebiam massagem, branqueamento de dentes e inclusive se maquiavam.


Antes desse tempo, os romanos igualmente tinham banheiros públicos, onde todos tomavam banho todo mundo junto, em saunas e piscinas que lembrariam os ofurôs de hoje. Ofurô, aliás, que nos lembra da China (que foi civilizada desde sempre) e do Japão, onde o banho igualmente em público era incentivado tanto para homens quanto para mulheres, inclusive para ambos em conjunto.


A desgraça da sujeira persistiu com piolhos e pestes até que nos séculos XI e XII surgiram as Cruzadas pregando a cruz ou a espada. Eles foram se misturando aos povos do mundo, e quando os cruzados voltavam, as novidades iam chegando ao Vaticano, em Roma, e lentamente a proibição ao banho foi sendo superada. Mas séculos ainda se passariam até que a medicina evoluísse. 
Nos séculos XVI e XVII, por mais incrível que possa parecer, os médicos ainda insistiam que as doenças eram “uma manifestação maligna”, algo que vinha do demônio e que tomava o indivíduo por suas vias de entrada. E, por isso, o banho seguia sendo proibido pelos doutores.


Foi a ciência, no que hoje chamamos de “Iluminismo”, que clareou as trevas do pensamento e que iria salvar o banho, demonstrando que ele beneficiava e não prejudicava o corpo e que essa coisa do diabo entrar pelos poros era besteira. Porém, ainda no século XIX, muitos doentes e hospitalizados tinham de ser banhados “à força”, pois acreditavam cegamente que tomar banho os levaria “aos braços do demônio”.


Tomar banho só ficou mesmo “popular” no Ocidente depois de 1930. Foi nessa época que se estabeleceu o costume de tomar banho “todo sábado”. E, também, todo sábado “trocar as roupas de baixo das crianças”. E, por fim, preciso lhes lembrar que foi só depois da Segunda Guerra Mundial que o banho chegou às casas. A energia que o mal pretende, o Bem sempre cria. As cidades viraram escombros e ao se reconstruir as casas devastadas pelos bombardeios, começamos a ter o “costume” de colocar uma peça para chuveiro e banho nas residências.


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