Um médico gaúcho no epicentro da pandemia na Itália

10/04/2020
Adriano Nunes Kochi

Adriano Nunes Kochi

Adriano Nunes Kochi é médico cardiologista e morador de Porto Alegre. Formado pela PUC, ele e a esposa, que também é médica, foram fazer especialização na Europa. Ele em Milão, na Itália, e ela na Suíça. Nesse período, estourou a crise do Covid-19 tanto num quanto noutro país. Adriano, estando em Milão, acabou no epicentro da pandemia na Itália. Esta semana, em conversa com o Editor Alan Caldas, com o qual tem amizade de família, Adriano respondeu perguntas sobre o que seus olhos de cidadão e de médico estão vendo naquela que é a região chave da tragédia na Itália. Acompanhe:


O que o levou para Milão, na Itália?
Dr. Adriano
– Vim fazer uma especialização médica, em eletrofisiologia cardíaca, é uma subárea da cardiologia que trata das arritmias. Tanto no Brasil quanto na Itália, o treinamento médico é feito basicamente na rede pública, entretanto a rede pública na Itália tem um acesso maior a tecnologias de ponta.


Quando chegou aí, qual era o “quadro clínico” da cidade?
Dr. Adriano
– Cheguei em 17 de agosto de 2019 e não havia problema relacionado ao vírus. Tudo estava muito bem.


Quando começaram a aparecer problemas graves?
Dr. Adriano
– No final de janeiro começou a se falar mais sobre o vírus na China e o risco para o resto do mundo. A primeira crença criada aqui foi que o vírus estava na mídia apenas por ser “novo”, mas que teria uma letalidade baixa e também uma transmissibilidade baixa. Logo, não seriam necessárias grandes medidas para a contenção. Após a identificação dos primeiros casos aqui na Itália, no início de fevereiro, foram fechados os aeroportos para voos vindos da China. Um mês após, a situação se tornou insustentável. Em 7 de março, havia mais de 5 mil infectados. O problema era ainda mais grave, porque os doentes, por um motivo até agora desconhecido, se concentravam quase todos nas cidades de Bérgamo, Cremona e Codogno, gerando esgotamento de leitos hospitalares pela concentração.


Houve toque de recolher? Como começou o isolamento?
Dr. Adriano
– O que ocorreu foi uma série de medidas, que vieram subitamente e não foram progressivas. Após uma reunião de poucas horas, na noite de 7 de março, o governo decidiu fechar todo o estado da Lombardia e limitar o  fluxo entre cidades na Lombardia, onde se concentravam quase todos os casos. 


Qual foi a reação popular?
Dr. Adriano
– A medida, por ter sido muito súbita e drástica, gerou pânico na população. Deflagrou um grande êxodo para o sul da Itália. Pessoas lotavam diversos trens durante a madrugada inteira, antes do fechamento, alguns mesmo sem bilhete e tendo que viajar muitas horas em pé. Consequentemente, pessoas contagiadas, ainda em incubação, levaram o vírus a todas as áreas da Itália e a aglomeração nos trens disseminou ainda mais o vírus. 


Algumas outras medidas foram tomadas?
Dr. Adriano
– Além do fechamento do estado, foi definido por lei que basicamente apenas supermercados, correios e farmácias estariam autorizados a abrir. Além disso, pessoas não poderiam circular nas ruas, exceto para ir a algum desses estabelecimentos. Para aqueles que desobedecessema norma, sendo, por exemplo, pegos muito longe de casa ou passeando por parques e praças, haveria multa prevista de 300 euros.


Quando realmente ligou o sinal de “alerta” nas autoridades?
Dr. Adriano
– O sinal de alerta foi ligado quando houve um salto muito grande no número de contagiados. Na primeira semana de março houve um salto de 1.000 para quase 6.000 contagiados. Também começou a chamar a atenção devido à gravidade dos casos que chegavam à UTI.


Assim que as autoridades se deram conta da gravidade, a população também logo percebeu e seguiu as orientações?
Dr. Adriano
– Primeiramente houve pânico extremo, pelo medo do desabastecimento. A população, em vez de manter-se em casa foi em massa aos supermercados e comprou quantidades absurdas de comida para estocar. Passado o pânico inicial, a população em geral teve uma boa adesão às orientações. Quando vou ao mercado, por exemplo, noto ruas vazias, é um silêncio absoluto no maior polo urbano/comercial da Itália.


No Brasil, a população coloca em dúvida os conselhos do setor de saúde pública. Dá para perceber aí que a população se deu conta que isso é um equívoco?
Dr. Adriano
– Na Itália nunca houve uma ideia diferente, ao menos por parte da população. Houve uma campanha chamada #MilãoNãoPara por parte da prefeitura, mas foi uma campanha muito tímida e por tempo muito curto, não foi exatamente como está sendo retratada na mídia no Brasil. Entre as pessoas que tenho contato aqui na Itália, e mesmo em discussões de redes sociais aqui, não há ninguém que defenda simplesmente ignorar a existência de uma pandemia em curso.


A evolução da tragédia italiana foi mostrada, aqui, como se tivesse sido de uma semana para outra. Tinha poucos e, de um dia para outro, havia muitos mortos. Foi assim mesmo?
Dr. Adriano
– Sim, foi extremamente rápida. Mas o salto no número de mortos ocorreu muito depois do salto de contagiados.


Em sua opinião de médico, essa velocidade da letalidade se deve a quê?
Dr. Adriano
– É difícil eu dizer com certeza, porque eu trabalho em um hospital cardiológico e não ficava na linha de frente, sempre me mantive apenas nos procedimentos cardiológicos. Mas, o que escutei de outros colegas é que o salto de letalidade ocorreu por esgotamento de leitos de UTI. Tendo leitos disponíveis e a equipe médica trabalhando em um meio ideal, a mortalidade é uma. No momento em que se começa a improvisar e sofrer falta de leitos para prover um tratamento ideal, a mortalidade aumenta.


Quais as orientações que a população seguiu? Quais as que não?
Dr. Adriano
– A orientação de manter distância de 1 metro, uso de máscaras e lavagem de mão estão sendo seguidas relativamente bem. Uma dificuldade do italiano é manter em casa criança e cachorro. Ainda hoje se vê gente circulando na rua para o filho ou o cachorro “espairecer”. A outra coisa que também dificulta evitar aglomerações, em supermercados, por exemplo, é o hábito que o italiano tem de sair em grupo. Em situações onde poderia sair apenas 1 para compras, saem 2 ou 3 da mesma família.


Mostra-se, aqui, pilhas de caixões. É uma visão assustadora. Isso também é mostrado nos veículos de comunicação daí?
Dr. Adriano
– Sim, aqui na televisão também são mostradas estas imagens. Mas deixo bem claro que não é a realidade da Itália como país. Aqueles vídeos em que aparecem diversos caminhões militares levando corpos ocorre apenas em cidades críticas, como Bérgamo e Cremona. É extremamente heterogênea a gravidade da situação. Por exemplo: em Milão, no dia 6 de abril se tem quase 11.500 infectados, enquanto que em Roma, apenas 2.700.


O que é feito com os corpos? Existe estrutura de enterro e/ou cremação imediata?
Dr. Adriano
– Funerais estão proibidos, pelo risco de aglomeração. Os corpos podem ser enterrados se o familiar designar um túmulo ou serem cremados. Como o número de mortos é muito elevado (atualmente em torno de 600/dia, mas já chegou a ser próximo a 1.000/dia, para toda a Itália), o crematório das cidades mais críticas não dá conta e o corpo acaba por ser cremado em outra cidade, transferido com veículo militar. Como as visitas a pacientes COVID-19 são proibidas, por vezes ocorre de uma senhora idosa trazer o marido apenas com uma tosse seca, ele piorar e falecer sem ter tido nenhum outro contato com a família.


Milão é um centro internacional. A população daí é miscigenada ou ainda é de maioria nativamente italiana?
Dr. Adriano
– De maneira geral, a população é italiana sem outra miscigenação. O que se observa é um aumento de imigrantes de origem africana, que navegam pelo mar entre a Tunísia e a Sicília. Após entrar pelo sul da Itália, acabam por vir ao norte em busca de trabalho por ser o polo comercial da Itália.


Qual é a influência do frio nessas mortes que ocorrem?
Dr. Adriano
– Este inverno em Milão foi bem brando, houve neve apenas 2 dias o inverno inteiro. O frio facilita a sobrevivência do vírus em superfícies e também gera aglomeração de pessoas em locais fechados, sem ventilação, facilitando a transmissão.


Qual a influência da idade nessas mortes?
Dr. Adriano
– É o principal fator determinante. Não se tem uma resposta definitiva do porquê. Entre crianças existem mortes, mas são extremamente raras, enquanto que em idosos pode atingir taxas de letalidade de até 15-20%. Existem algumas teorias sendo investigadas por cientistas, como proteção por imunidade cruzada com a vacina BCG (feita ao nascer), mas ainda é apenas uma especulação.


Por que se observa uma letalidade maior na Itália, comparada a outros países? 
Dr. Adriano
– O cálculo da letalidade pode ser falseado por um número errado na contagem de infectados. Aqui na Itália só são testados os que hospitalizam e são orientados a ficar em casa todos os com sintomas leves. Sabe-se que o vírus gera sintomas leves em 80% dos infectados. Logo, o número atual de 132 mil contagiados na Itália deve ser falso, esse seria o número dos contagiados que hospitalizaram. O número verdadeiro deve ser próximo a 1 milhão. Se isso for verdade, a letalidade de 12% se torna 2%.


Qual a influência da densidade demográfica, se é que tem?
Dr. Adriano
– Não temos dados ainda para fazer afirmação acerca desse ponto. Intuitivamente me parece ser um fator agravante por provavelmente facilitar a transmissão.


Aqui se fala que isolamento funciona. É possível constatar, a partir da realidade que se tem aí, que essa afirmação é verdadeira?
Dr. Adriano
– Ainda é cedo para afirmar com certeza. Na Itália está fazendo um mês de isolamento e recém se observou uma pequena queda no número de contagiados e mortos por dia. A Suécia tentou fazer o contrário, ou seja, não fazer isolamento, e teve uma explosão de casos de mortes que motivou o fechamento poucos dias atrás.


Em termos de economia, comércio e serviços estão todos fechados em Milão? Ao sair na rua, o que se vê aberto?
Dr. Adriano
– Abertos foram mantidos apenas mercados, farmácias, correios e também algumas bancas de revistas. O transporte urbano ainda funciona, mas cada ônibus que passa tem no máximo 3 pessoas dentro.


Como reagiram os preços, nesse período? Continuaram estáveis? Aqui, o preço da alimentação disparou. E aí? 
Dr. Adriano
- Aqui o preço se manteve. Nos produtos alimentares que consumo, não notei uma diferença significativa


O abastecimento em geral está normal ou faltam coisas?
Dr. Adriano
- Normal. Encontra-se todo tipo de produto.


Como está o ir e vir? Tem restrições para sair ou entrar na Itália?
Dr. Adriano
– O liberado por lei é sair apenas para ir em supermercados, farmácias, correios, o que for mais próximo de casa. As fronteiras com todos os países estão restritas, e o que diz na lei é que só se pode entrar e sair do país por motivos muito importantes, mas não especifica quais seriam os motivos.


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