Ex-prefeito resgata a história através de fotos e textos

10/09/2019
Juarez Stein

Juarez Stein

Ao longo dos 60 anos de emancipação, Dois Irmãos teve 10 prefeitos diferentes – nove homens e uma mulher. O primeiro foi Justino Vier (in memoriam), que depois ainda teve um segundo mandato e anos mais tarde escreveu um livro sobre a história do município.
Assim como Justino, Juarez Stein também foi duas vezes prefeito (1997-2000 e 2001-2004) e igualmente gosta de escrever sobre o passado da cidade. Suas publicações estão disponíveis na internet (https://juarezstein.wordpress.com/), e seu texto elegante e preciso nos remete a um tempo de agradáveis lembranças. Juarez nasceu em Linha Comprida, Salvador do Sul (na época, pertencia a Montenegro), e veio para Dois Irmãos com a família em 1964. Antes de chegar à prefeitura, foi vereador por dois mandatos, entre 1983 e 1992, e atualmente ocupa o cargo de secretário da Fazenda. É casado com Alesia Maria Scholles Stein e pai de dois filhos – Bruno Henrique, 27 anos, e Luís Gustavo Stein, 24. 
Na entrevista a seguir, leia o que Juarez tem a dizer sobre Dois Irmãos. Confira também trechos de duas de suas publicações, contando um pouco dos primórdios da emancipação e falando do que lhe motivou a escrever.


Como vê Dois Irmãos hoje, aos 60 anos de emancipação?
Juarez
- Bonita, organizada, aprazível, totalmente transformada, com jeito de cidade maior do que realmente é.


Quais suas principais recordações da cidade de antigamente?
Juarez
- Tudo era mais calmo, mais lento. Em 1970, as nossas indústrias calçadistas tinham, juntas, em torno de 600 operários. Praticamente todos se conheciam. Existiam espaços precários para a prática de futebol em vários locais. Em 1983, já eram 2500 operários. O futebol sempre foi levado muito a sério pelos nossos três clubes (União, “7” e Vila). Participamos de muitos torneios de clubes festivos, de bailes e festas, tanto na sede como no interior. Na sede, eram os bailes na Santa Cecília e a Boate Express que faziam sucesso. Tínhamos, então, uma quadra de futebol de salão, nos fundos da sede social da Santa Cecília. Aqui não tem espaço para mencionar tudo.

Do que sente mais orgulho nos seus mandatos?
Juarez
- Os municípios estavam, ainda, melhor capitalizados. As contas públicas estavam, sempre, bem ajustadas. Conquistamos vários pavilhões de esportes, creches, unidades de saúde, os dois trevos na BR-116, o espaço onde está hoje o Complexo Esportivo, as melhorias no Centro, participamos da construção do Parcão, entre muitas outras coisas boas. Por fim, deixamos uma boa importância de dinheiro no caixa da municipalidade.


Nas redes sociais, o senhor costuma compartilhar fotos históricas e antigas. Por que é tão importante relembrar o passado?
Juarez
- Não convém a fotografia continuar esquecida na gaveta. Mais cedo, mais tarde, alguém vai acabar colocando-a fora. O agora está diante de todos. É importante saber como se deu a mudança – a extraordinária mudança dos últimos 50 anos. Pela fotografia podemos entender bastante desta trajetória. Procuro auxiliar no entendimento do que houve aqui, em Dois Irmãos.


O senhor mantém uma página na internet com textos da história do município e crônicas que misturam lembranças deste passado. Por que começou a escrever?
Juarez
- É por estima e gratidão para com Dois Irmãos. Nós transferimos residência para cá em 1964. Aqui crescemos, estudamos, trabalhamos, formamos famílias. Fomos muito bem recebidos aqui. Sou um apaixonado por esta terra. Na vida, chega aquele momento, por exemplo, em que você deixa de jogar futebol. Você redireciona esse tempo. Foi, basicamente, o que aconteceu. Passei a gostar mais e mais de ler e de escrever. 


Já publicou algum livro, pretende fazê-lo ou deixará apenas na internet?
Juarez
- Os trabalhos estão na internet. O grupo – a sociedade é formada por grupos – que gosta do tema é reduzido. Então, está lá para os interessados. São tantos livros publicados, são tantas as informações circulando; grande parte das publicações sequer serão folheadas. É muito triste isso! Bons trabalhos – e não poucos – serão ignorados, esquecidos. Vou deixá-los assim, na internet, à disposição. Publicá-los tem custo e geralmente sem o retorno necessário.


Pensa em voltar a ser candidato a prefeito?
Juarez
- O grupo que está no comando da administração já tem seu candidato a prefeito definido.


O que esperar dos próximos 60 anos?
Juarez
- Espero que os futuros administradores cuidem bem de nossa cidade, com responsabilidade, com carinho, com competência. Tudo, no dia a dia, é feito pensando no bem-estar dos cidadãos. Espero que este seja o norte dos gestores do futuro, dos próximos 60 anos. Se bem que, no ritmo em que as coisas andam, na rapidez em que as coisas se dão, não tenho a mínima ideia do que posso ou devo esperar.


Resolvi escrever*

Sou de 1957.  Em 1975, há em torno de 40 anos, em nossa pequena cidade, distante menos de 60 km da capital Porto Alegre, solicitávamos as ligações telefônicas a uma central local; aguardávamos, não raras vezes, uma, duas, três ou mais horas pelo retorno. A fotografia feita não nos era entregue no ato. Ao posar para tal, nos esmerávamos ao máximo. Primeiro, porque não era corriqueiro. Depois, porque ali estava sendo construído um registro nosso à posteridade. Caprichávamos! Queríamos marcar, além de nossa juventude, saúde, alegria, traços de nossa personalidade. Depois, as fotografias tinham o seu preço.

Fiquei a refletir sobre essas mudanças que aliás, nesses 40 anos que nos separam de 1975, são tantas e tão profundas! Nada é constante, nada é permanente, certo! Mas a rapidez com que elas vêm se processando põe à prova a nossa capacidade de adaptação.
Agora mesmo, bem defronte ao nosso prédio passou um veículo, uma camioneta, nem tão nova, somente com o motorista a bordo, com o rádio num volume absurdo. O fato é recorrente. É quando me pergunto: o que se passa com esse tipo de condutor? Ainda no decorrer da leitura, três motociclistas passaram moderadamente, porém com suas descargas abertas, produzindo ruídos aberrantes e desprezíveis.
Eu sempre tive vontade de escrever algo interessante sobre a minha cidade, sobre a sua gente. Tenho algum material a ser dissecado. Posso pesquisar na Biblioteca Municipal, no Museu; posso revolver o arquivo do município. Posso pesquisar nas atas da Câmara Municipal, em registros de alguma igreja ou clube social. Sei que vai dar algum trabalho. Sei, igualmente, que disponho de pouco tempo para tanto. Terei, pergunto-me, condições de produzir algo bom, que possa interessar? Muitos livros, produzidos com esforço e esmero, sequer são folheados. As bibliotecas estão abarrotadas de títulos, muitos dos quais somente são tocados para a retirada do pó acumulado. Nosso povo lê pouco. As redes sociais estão em alta; nelas, a imagem tem prevalência. Gosto de ler. Queria ter lido mais. O hábito se impôs a partir dos 44 anos. Agora, apesar da dúvida sobre se vale ou não a pena, estou decidido: vou escrever.
A fotografia que antecede esse capítulo é de 1975. Tínhamos, na ocasião, em torno de 17 a 22 anos. Cheios de energia, planos e sonhos, trabalhávamos muito. Todos estão vivos. Gostaria de poder perguntar a cada um deles, coisas como: O que lhe aconteceu de mais maravilhoso? De mais triste? Qual foi a sua maior conquista? Qual foi a sua maior frustração? O que você não faria novamente? Na vida, hoje, o que você considera mais importante? Atualmente, quais os seus objetivos? Em relação a 40 anos atrás, como você vê o mundo? Em relação ao seu emprego inicial, você escolheria o mesmo? Em termos de comportamento, quanto as mudanças ocorridas, o que tens a dizer?
Vou procurar retratar aquele tempo; vou procurar comparar situações; quero escrever sobre fatos e ocorrências que exigiram bastante de nós. Não sei como serão os próximos 40 anos. Certo é que esse período de quatro décadas acelerou por demais o trem de nossa história pessoal.


* Trecho retirado da publicação Anos de transformação: 1975 – 2014


Lembranças de nossa história*

Em 20 de dezembro de 1959, aconteceu a primeira eleição municipal. Eu tinha, na ocasião, menos de três anos. A nossa família ainda não residia no recém-criado município de Dois Irmãos. O candidato do Partido Libertador, Justino Antônio Vier, venceu com 755 votos de diferença, num universo de 3.314 eleitores. Venceu, portanto, com folga. O candidato Walter Fleck, também do PL, venceu com uma diferença ainda maior para o cargo de vice-prefeito, somando a mais que o concorrente 1.063 votos. Dos sete vereadores o PL elegeu três, o P.S.D. (Partido Social Democrático) três e o P.T.B. (Partido Trabalhista Brasileiro) – P.R.P. (Partido Republicano Paulista) um. Orgulhoso com o resultado, empossado em 31 de dezembro de 1959, o prefeito Vier escreve ao Partido Libertador deixando claro que os Libertadores “são os absolutos do município”. Vier aproveita para pedir a cooperação da bancada do partido e escreve: “Tenho a certeza que esta não falhará, pois o maragato quando entra na luta não respeita adversário”.

Vê-se pelo número de eleitores que a população de Dois Irmãos era, então, bastante reduzida. O município contava com um pouco mais de 300 km². Emancipados os municípios de Santa Maria do Herval e Morro Reuter, Dois Irmãos permaneceu com apenas 65,156 km². Chama a atenção também o reduzido número de veículos motorizados licenciados no exercício de 1960. Circulavam em todo o município apenas três motociclos, dez jeeps, seis ônibus, 26 automóveis particulares, cinco automóveis de aluguel e 116 camionetas e caminhões.
Em resposta a um questionamento da CEEE (Companhia Estadual de Energia Elétrica), o município repassou os seguintes dados: que na sede existiam 215 prédios de moradias; que no distrito de Morro Reuter existiam 140 e que no distrito de Santa Maria do Herval eram 170 prédios de moradias. Em outros documentos a municipalidade mencionou um número bem menor de residências em Santa Maria do Herval. De todo modo, são números sem consistência, a menos que representem as moradias com energia elétrica. Muitas localidades, em 1960, ainda não dispunham de eletrificação.
Quanto a atividade econômica, na maior parte do território as atividades relacionadas à agropecuária predominavam; na sede, algumas pequenas fábricas de calçados já geravam dezenas de empregos. Esse ambiente, segundo dados fornecidos pela administração municipal à época, fomentava negócios como os relacionados a seguir: 42 armazéns de secos e molhados; 13 matadouros e açougues; dez barbearias; oito serrarias; seis comércios de bebidas; sete bares; seis bares e restaurantes; seis ferrarias; seis compradores de produtos coloniais; três funilarias; duas carpintarias; duas serrarias e carpintarias; duas alfaiatarias; duas oficinas mecânicas; um açougue; um bar e churrascaria; um hotel.
Constatei a existência de outras atividades, outros empreendimentos, que há 55 anos resultavam em geração de empregos e tributos para o recém-criado município e que merecem menção: 12 fábricas de calçados; 14 moinhos; quatro engenhos; quatro fábricas de queijo; dois curtumes; uma padaria; duas fábricas de aguardente; duas fábricas de carrocerias; duas leitarias; uma cantaria; uma olaria e uma construtora.


* Trecho retirado da publicação Dois Irmãos – 1985: Um Divisor de Águas

 


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