As muitas facetas por trás de Herta

19/06/2020
Betinho Klein como Herta

Betinho Klein como Herta

Há 10 anos Herta Klein percorre os palcos do Rio Grande do Sul. Só em 2019, essa simpática senhora de cabelos loiros e olhos azuis levou alegria a mais de 100 cidades do Estado. Com sotaque alemão, evidenciando as raízes germânicas, ela compartilha, de um jeito muito bem-humorado, as vivências de quem mora no interior gaúcho. Fala sobre amores, amizades e os desafios de, já a uma certa altura da vida (ela não revela a idade), lidar com tecnologias como Facebook e Instagram.
Personagem mais emblemático da Companhia de Teatro Curto Arte, de Dois Irmãos, Herta caiu no gosto do público e se tornou a cara do grupo, que existe desde 1992. A personagem é tão real que já teve gente achando que a Herta existia de verdade. Já teve até pretendente de São Leopoldo procurando por ela no Teatro Adriano Schenkel, casa da companhia dois-irmonense.
O sucesso da Herta, que já atraiu mais de 1 mil pessoas ao Teatro Feevale, em Novo Hamburgo, se explica ao despirmos a personagem: é quando conhecemos Carlos Alberto Klein, o popular Betinho, ator, diretor e produtor de teatro que dá vida a ela. Trabalhando com artes cênicas há quase 30 anos, sempre foi um dos grandes incentivadores do consumo cultural na região. Em 2015, foi homenageado pela Assembleia Legislativa, junto a outras 32 pessoas, justamente pelo trabalho realizado em cidades longínquas de origem germânica.
Entre a Herta e o Betinho, há apenas uma semelhança física: os olhos azuis. Mas, na essência, há muito em comum entre os dois, principalmente o humor, a alegria e a energia ao lidar com as pessoas. Talvez seja isso que torne a Herta a “menina dos olhos” dele. “A Herta é a identidade da Curto Arte, é o personagem com o qual as mulheres se identificam. Muitas já chegaram para mim e falaram que queriam que ela existisse de verdade, para serem amigas”, conta Betinho, relembrando também o dia em que um morador de São Leopoldo foi até Dois Irmãos para conhecer a Herta de perto. A história foi pra lá de engraçada. “Ele veio até o teatro atrás dela”, relembra Betinho, às gargalhadas. “Estava no escritório, quando uma das meninas me chamou, dizendo que um homem estava na recepção querendo conhecer a Herta. Fui lá, conversei com ele, apresentei o teatro e voltei para o escritório. E ele não foi embora; queria porque queria falar com a Herta”, recorda o ator, contando que só depois de uma segunda conversa o morador entendeu que a Herta era um personagem interpretado por um homem. “As gurias queriam que eu me vestisse de Herta, mas falei que não ia colocar peruca aquela hora. Fui lá de novo e expliquei para ele. Saiu decepcionado, coitado. Tinha se apaixonado pela Herta”, completa Betinho, aos risos.
A personagem começou a ser construída em 2009, a partir do desejo de representar, no palco, a mulher do interior. “Eu queria criar um personagem que tivesse vida própria, que conquistasse as pessoas além do palco, e eu consegui. Enquanto eu estiver em vida, a Herta vai existir”, garante Betinho, comentando sobre a paixão por teatro. “No teatro, é sempre uma nova apresentação. Muda lugar, muda plateia; é todo dia um outro espetáculo”, completa, destacando a felicidade em subir ao palco. “Me sinto muito feliz”.



Sucesso é resultado de mais de 30 anos de trabalho

Hoje a Curto Arte é reconhecida em todo o Estado e isso se deve ao trabalho realizado por Betinho ao longo de todos esses anos. Nessas três décadas, atuou na produção de shows, levou o teatro para dentro das escolas, criou o Festival de Teatro Estudantil, que durou de 1998 a 2005; foi idealizador do Festival Estadual de Teatro, que ocorreu de 1989 a 2006; é autor de mais de 15 peças de teatro e também já deu vida a personagens como Miro, Nêne, Lúcia, Cidônia, Alvícia, Edwig, Zé do Lixo, Mindo, Peda, Jacó, Zeca, Juca, entre tantos outros.
Betinho começou como produtor cultural em 1986 e sem pretensão nenhuma de ganhar dinheiro. O desejo era movimentar a cidade com atrações musicais, principalmente. Na época, contratava bandas da região, como Barata Oriental, para tocar em bares. “Fazia por lazer, não era por dinheiro. Eu terminava a noite nas mesas dos bares”, conta Betinho, lembrando que os shows aconteciam sempre nas quintas e sextas-feiras à noite. “Vinha gente de toda a região. Tinha vezes que faltava cerveja”, recorda, aos risos. Já em 1992, fundou a Produtora Cultural Curto Arte. A partir dali, promoveu eventos maiores, como o “Raul Roque História”, um festival de heavy metal e shows de bandas como Papas da Língua, Nenhum de Nós e Reação em Cadeia. “Esse último show foi no início dos anos 2000. Foi a primeira vez que teve cambista em Dois Irmãos”, lembra Betinho, caindo na gargalhada.


A relação com o teatro
O gosto pelas artes cênicas foi surgindo aos poucos, lá no final dos anos 80. Sem carro, Betinho seguia de ônibus até Novo Hamburgo para ir ao cinema ou acompanhar as atrações do Teatro Municipal. Foi essa vivência que despertou o desejo de fazer teatro em Dois Irmãos. Já nos anos de 1993 e 1994, o artista promoveu as primeiras oficinas na cidade. “Eram oficinas de interpretação, comunicação, que duravam de dois a três meses. Trouxemos diversas pessoas reconhecidas no cenário artístico, entre elas o Cris Pereira”, diz Betinho, contando que o objetivo era formar plateia, para que as pessoas começassem a respirar teatro no município, além, é claro, da formação de artistas.
Depois de algumas oficinas, Betinho levou as primeiras peças teatrais para os palcos de Dois Irmãos. Nem todas deram certo. “Teve uma que não veio quase ninguém, só umas quatro, cinco pessoas. Lembro da peça até hoje: Vida e Obra de Fernando Pessoa, de um grupo de Gravataí. Tiveram que desmontar todo o cenário”, conta ele, lembrando que naquela época o ingresso era R$ 10.
Em compensação, logo depois lotou sociedades locais ao levar ao público artistas como Pedro Bismarck, com o personagem Nerso da Capitinga; Tangos e Tragédias; e o Manual Prático da Mulher Moderna. “Trouxemos, naquela época, muitos espetáculos reconhecidos no RS”, conta Betinho, confessando, porém, que eles não significaram ganhos financeiros. “Como produtor, os eventos nunca se pagaram, só acumularam dívidas”, completa.


Autor de mais de 15 espetáculos
Betinho começou a escrever peças teatrais em 1998. Hoje, já são 15 espetáculos assinados por ele. O primeiro foi o Lixo é Lixo, peça que chamava a atenção para a importância da separação correta do lixo e que circulou durante muitos anos pelas escolas do Vale do Sinos, fazendo com que a companhia se tornasse conhecida também na região. O personagem principal, Zé do Lixo, interpretado pelo ator, caiu no gosto do público. “O Zé do Lixo foi um sucesso, e foi ali que descobri como era legal escrever”, destaca Betinho, que logo depois escreveu a peça À procura das águas perdidas, que ganhou o estado através de um projeto contemplado pela Corsan. “Viajamos com a peça por todo o RS, de Kombi”, diz o ator. “O buraco do tanque de gasolina era tapado com o Bubbaloo que as meninas mascavam”, revela, aos risos.
Depois dali, surgiram também A Sapataria, Memórias de Natal, Meu sonho de Natal, Nós somos mesmo maravilhosas, Maravilhosas vão à praia, As aventuras de Zeca e Juca, As cartas de dona Amália, Do outro lado da cerca, Thiltapes - a caçada final, Herta - a vizinha!, Herta Quer Casar, Simplesmente Herta e O Retrato, entre outros. Este último foi escrito em 2003 e fala sobe a colonização alemã, a agricultura familiar, o processo de industrialização e o êxodo rural. “É o melhor texto que escrevi até hoje. Há uma mistura cultural muito grande. Foi um espetáculo muito premiado. Entre 2004 e 2006, recebeu quase 40 prêmios. Foi eleito o melhor espetáculo do estado em Erechim, em 2005”, lembra Betinho, que naquela peça atuava ao lado do ator Adriano Schenkel, que faleceu em 2006 em um acidente de trânsito. Logo depois do fato, o espetáculo foi suspenso e só retornou aos palcos 10 anos depois, com a presença de Cristiano Schenkel, irmão de Adriano. “A peça representou um divisor de águas na Curto Arte, que a partir deste texto começou a valorizar a cultura germânica, resgatando a história e os costumes do povo alemão em cima do palco”, destaca.



O sonho do teatro próprio

Em 2010, Betinho realizou o seu grande sonho: a inauguração do Teatro Adriano Schenkel. Um antigo depósito de cebola e batata se transformou no único teatro da cidade, com 118 lugares. “Minha mulher nunca me perdoou”, brinca Betinho, comentando que muitos conhecidos acharam isso uma loucura. “No fundo também acho uma loucura, porque, na verdade, essa responsabilidade não é nossa”, diz ele, referindo-se ao descaso do poder público quanto à criação de espaços culturais.
De 2010 para cá, o teatro foi palco de espetáculos, apresentações musicais e palestras. Infelizmente, sua história está com os dias contados. Alugado, o local foi solicitado pelo proprietário, que irá destruí-lo para a construção de um centro comercial. “Meu sonho era ter um teatro, um teatro de qualidade, e agora se perde este espaço”, lamenta Betinho, que precisa entregar o prédio no final do ano.


Aldeia da Herta
Pego de surpresa com a notícia de que teria que entregar o prédio atual, Betinho já colocou em prática o projeto da Aldeia da Herta, que será desenvolvido em uma área rural da localidade de São José do Herval, em Morro Reuter. “Lá teremos cultura, lá vamos fomentar o turismo cultural”, conta Beto.
Por enquanto, em razão da pandemia, a execução do projeto está paralisada, assim como as demais programações da Curto Arte. Mas Beto busca maneiras de se manter próximo do público, principalmente através de lives ou vídeos postados nas redes sociais. Quem quiser acompanhar o trabalho e garantir boas risadas, basta acessar o Facebook e o Instagram da Herta ou da Curto Arte. Também há conteúdos no canal oficial dela no Youtube.


Quem é Carlos Alberto Klein
Despido de qualquer personagem, Carlos Alberto Klein é filho de Leopoldina e Edwino Klein, já falecidos. Natural de Dois Irmãos, é de uma família de nove irmãos. Aos 12 anos teve o primeiro emprego, em uma fábrica de calçados. Depois trabalhou como entregador de móveis e no setor financeiro de um estabelecimento comercial. É casado há 25 anos com a Mara Lúcia de Souza Marques e pai de Marina Marques Klein, de 16 anos.

 

 


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