Melhor do mundo em 1992, Jorginho 13 relembra carreira vitoriosa no futsal

26/06/2020
Reportagem de Thaís Lauck

Reportagem de Thaís Lauck

Garoto do subúrbio do Rio de Janeiro, Jorge Luiz da Costa Pimentel, o Jorginho 13, brilhou nas quadras de futsal e se tornou o primeiro brasileiro a ser eleito o melhor jogador do mundo pela FIFA, em 1992. Vivendo em Parobé, no Rio Grande do Sul, exibe orgulhoso, na sala de casa, milhares de troféus e medalhas conquistados ao longo dos mais de 40 anos de quadra. “Tudo o que um atleta sonha, eu conquistei”, diz o salonista, cheio de saudade. “Se pudesse, começava tudo de novo”, completa.
Considerado um dos maiores jogadores da história do futsal brasileiro, o pivô defendeu a camisa da Seleção Brasileira durante 15 anos, atuando ao lado de craques como Manoel Tobias e Falcão. Ao longo da carreira, defendeu as cores de mais de 20 clubes. No Brasil, jogou em times como Bradesco, Grêmio, Internacional, Enxuta e Atlético Mineiro. No exterior passou, entre outros, por Mitsubishi Ceuta, na Espanha; Spartak, GKI Gasprom e Viz-Sinara, na Rússia; e All Sair, na Arábia Saudita.
Carioca, é vascaíno doente. Viveu até os 16 anos no bairro Riachuelo, na Zona Norte do Rio. “O barraco onde eu morava era grudado na Favela da Matriz”, conta Jorginho, que teve uma infância humilde, mas muito feliz. “Morro de saudade do Rio”, afirma ele, que vive há mais de 30 anos no RS. “Sou muito grato ao povo gaúcho. Foi aqui que fiz meu nome como jogador”, diz ele, afirmando que ainda hoje as pessoas o reconhecem e o tratam com carinho nas ruas. “Gosto de tudo aqui no sul, só não aprendi a gostar de chimarrão”, confessa, aos risos.
Apaixonado por futebol, jamais imaginava que ganharia o mundo através do esporte. “Comecei a jogar bola dentro da barriga da minha mãe”, brinca ele, contando que jogar futebol sempre foi o seu passatempo preferido. “Eu jogava com a gurizada até minha mãe chamar de volta para casa”, lembra ele, que literalmente dormia com a bola. “A gente era muito pobre, nem travesseiro tinha em casa, aí eu dormia em cima da bola mesmo”, conta Jorginho, que também se divertia com bolita e pipa. “Solto pipa até hoje na beira da praia”, revela o ex-jogador, que aos 51 anos cultiva a alma de um menino alegre e travesso.
Habilidoso, aos 9 anos chamou a atenção de um olheiro. “Lembro como se fosse hoje. Era uma segunda-feira, umas oito horas da noite, e chovendo. Estava jogando bola com uns amigos no campinho, quando um senhor negro e de cabelo branco me chamou e disse que era olheiro e treinador de um clube, e queria que eu treinasse na escolinha com ele”, lembra Jorginho, que dias depois já fazia parte da equipe do Piedade Tênis Clube. “Tinham me prometido um kit; eu nem sabia o que era kit”, relembra, cheio de humor. Kit era o uniforme de treino e um tênis. “Treinei uns quatro dias descalço e nada do kit. A gurizada só tirava onda com a minha cara, até que um dia o pai de um dos meninos me deu um tênis usado. Era um 35; eu calçava 33. Amassei jornal, coloquei dentro do tênis e beleza; parecia um pé de pato”, conta Jorginho, às gargalhadas. “Dias depois, ganhei o kit, aí ninguém me segurou mais”.
Desde garoto, Jorginho se destacava nas quadras. “Eu queria me divertir; sempre amei jogar bola”, relata. Dos primeiros treinos na escolinha da Zona Norte até a chegada a um grande clube do Rio de Janeiro, se passaram ligeiros sete anos. “Quando eu tinha de 15 para 16, disputei o Campeonato Carioca juvenil. Meu time ficou em 6º lugar e eu fui o artilheiro, com 56 gols”, revela Jorginho, que no ano seguinte ingressou no time juvenil do Bradesco, uma das potências do esporte na época. “Jogar no Bradesco era um sonho; os melhores estavam lá”, diz ele que, em pouco tempo, também já treinava com a equipe principal do clube. “Estava jogando ao lado dos meus ídolos”.
Destaque no Rio de Janeiro e em São Paulo, aos 17 anos Jorginho chegava pela primeira vez ao Rio Grande do Sul para defender o Grêmio. De lá, foi para a Enxuta, uma forte equipe de Caxias do Sul que existiu entre 1986 e 1996. Neste mesmo período, mais precisamente em 1989, foi convocado pela primeira vez para jogar na Seleção Brasileira. “Fui chamado logo depois de ficar campeão brasileiro com a Enxuta, sobre o Bradesco, lá no Rio”, recorda Jorginho, que naquela época também realizou o sonho de dar uma casa para a família. “Minha mãe desmaiou quando conheceu a casa”, lembra, aos risos.


A conquista de 1992
De todos os jogos, a final da Copa do Mundo de Futsal de 1992, em Hong Kong, na China, é especial. O Brasil levou o título ao vencer os Estados Unidos por 4 a 1, com gols de Jorginho (2) e dos alas Vander e Manoel Tobias. Ainda faziam parte da equipe os goleiros Serginho e Mazureik, os fixos Serginho Bigode, Chiquinho e Morillo; os alas Fininho, Rogério e Edinho e o pivô Ortiz.
A final é recordada com tanto entusiasmo, que parece ter sido ontem. “O time estava voando. Demos show. Fomos campeões invictos e levamos todos os prêmios individuais”, lembra Jorginho, contando que foram 40 dias intensos de preparação na China, onde ele jogava pela primeira vez. “Era treino nos três turnos”, diz ele, que sempre foi um jogador comprometido. “Era dedicado, não regrado; não era exemplo para ninguém”, revela, aos risos. “Vencemos os EUA diante de 18 mil pessoas, em um ginásio que já tinha recebido show da Madonna e luta de Mike Tyson”, completa, orgulhoso.



No exterior, maior desafio foi o idioma

Mais de 40 anos de quadra também renderam boas histórias fora das quatro linhas, uma delas protagonizada na Arábia Saudita. “Fiquei uma temporada lá, sem intérprete, sem ninguém para conversar. Deus me livre, me deu até depressão; estava sozinho o tempo inteiro”, diz Jorginho, comentando sobre um dos momentos mais desafiadores da carreira.
A passagem pela Arábia Saudita hoje rende boas recordações. “Eu saía para a rua com a camiseta do Brasil, na esperança de que alguém puxasse assunto comigo, e nada de conversa”, conta ele, que se virava com gestos e uma ou outra palavra em inglês. “No primeiro dia ficaram com o meu passaporte e me entregaram um papel timbrado do clube. Vi que tinha meu nome. Pensei ‘isso deve comprovar que jogo e posso circular por aqui’. Um dia no carro, indo para o treino, o motorista me perguntou sobre um tal de ‘doc’, aí pensei ‘bah, esse é o tal do papel’. E era mesmo”, conta, aos risos.
A única conversa de verdade aconteceu faltando menos de um mês para o término do contrato. “Estava almoçando em um restaurante, quando um espanhol cutucou no meu ombro”, conta ele, lembrando de cada detalhe.
“Falei para ele ‘cara, tu pode me escutar um pouquinho? Por favor, cinco minutinhos’. Comecei a falar sem parar. O que não falei em 9 meses, falei em duas horas. Depois disso, todo dia ia até lá tentar falar com ele. Quando o cara chegava, eu já estava lá”, completa.


Fugiu do frio da Serra Gaúcha
Acostumado com o calor do Rio de Janeiro, Jorginho literalmente fugiu do frio de Caxias do Sul, após os primeiros dias de trabalho na Enxuta. “Um dia abri a janela do apartamento e achei que estava acontecendo algo. Chamei meu colega de quarto e ele falou que era neblina”, lembra. “Passei um frio do cão nos primeiros dias, aí não aguentei”, explica.
“Arrumei minhas coisas, peguei um táxi até a rodoviária e depois um ônibus até Porto Alegre. De lá, voltei para o Rio. Ficou todo mundo apavorado atrás de mim”, conta Jorginho, que dias depois estava de volta ao Sul. “O Jaime Walker (presidente da Enxuta na época) foi me buscar no Rio de Janeiro. Quando cheguei no quarto, tinha até lençol térmico”, recorda.


Jorge Luiz da Costa Pimentel
Filho da dona de casa Maria Dalva da Costa Pimentel e do pedreiro Pedro Pimentel da Silveira (ambos já falecidos), Jorginho é o mais velho dos cinco irmãos - três homens e duas mulheres. É pai do Yuri e do Pedro Caetano, avô do Pietro, de 2 anos, e companheiro da Maria Lúcia da Silva.
A dedicação aos estudos não chegava nem perto do rendimento dentro das quadras. “Fui até a 7ª série. Matava aula para ir para a praia jogar bola. Voltava morenão para casa”, conta ele, que antes de se tornar jogador de futsal, trabalhou como camelô nas ruas do Rio de Janeiro e como chapeiro em um restaurante carioca.
Criado em um cenário chefiado pelo tráfico, Jorginho se orgulha da história que construiu. “Mesmo com tantas dificuldades, vivendo no meio do tiroteio, me tornei um esportista. Me deram uma oportunidade, e eu agarrei”, diz ele, destacando também o orgulho de cultivar até hoje a alegria do menino franzino, criado no alto da favela. “Estou sempre sorrindo, sacaneando a galera, a não ser quando estou dentro de quadra; aí sou chato, quero ganhar de qualquer jeito e reclamo com o juiz”, destaca, lembrando que quando menino, muitas vezes a única refeição do dia era a merenda da escola.



Projeto Social

Há 6 anos, Jorginho fundou, em Parobé, o Projeto Social Jorginho 13- Cidadão sem Diferença. Atualmente, a iniciativa é comandada por ele e os sócios Marcelo Cunha e João Jaeger e conta com três núcleos na cidade e um em Taquara, reunindo, no total, cerca de 200 alunos, de 4 a 15 anos de idade.
Dos meninos, 20 participam do projeto gratuitamente. “São garotos que vivem em situação de vulnerabilidade social. Também ajudamos com alimento e roupa”, destaca Jorginho, reafirmando que estes 20 participantes não pagam mensalidade, mas precisam atender a um pedido se quiserem seguir na escolinha: estudar. “Eles devem ir bem na escola e tirar notas boas”, reforça Jorginho, contando que no ano passado todos foram aprovados. “Foi a minha maior felicidade em 2019”, diz ele. “Minha alegria é a escolinha; é a minha fortaleza”, destaca, demonstrando carinho imenso pela garotada. “Agora é minha hora de ajudar e dar oportunidade para essa gurizada”, finaliza.


Treinador
Atualmente, Jorginho atua como treinador na região. No primeiro semestre de 2019, comandou a equipe do Gramado Futsal na Série Ouro do campeonato gaúcho. No segundo semestre assumiu o cargo de técnico da Rabelo Futsal, de Alvorada, no lugar de Danilo Martins, que aceitou proposta de trabalho na Europa. “A equipe acumulava vitória em cima de vitória. Com a saída do Danilo, a diretoria se reuniu às pressas para achar um nome para substituí-lo, e por unanimidade o nome de Jorginho foi posto na mesa”, destaca o diretor de futebol do clube, Cristiano Mattos.
Sob o comando de Jorginho, a Rabelo ficou em 4° lugar no estadual pelo regulamento. No sistema de pontos, ficou atrás só da Assoeva, finalizando a competição com a segunda melhor campanha no número de pontos. Além disso, o time também foi vice-campeão da Copa dos Campeões de Esteio, a maior competição amadora de futsal do RS. “O Jorginho chegou à Rabelo com seu jeitão de boleiro e respeito de um melhor do mundo; não demorou muito para conquistar a todos do clube. Seguiu o trabalho deixado pelo Danilo e continuou empilhando vitórias”, destaca Cristiano, contando que a renovação do contrato só não ocorreu por questões de distância e dificuldades financeiras. “A Rabelo, que até pouco tempo era apenas um clube amador de Alvorada, se sente muito orgulhosa de poder ter em seu currículo a passagem do Jorginho 13 em seu comando. Além de um excelente profissional, é um ser humano único e uma pessoa de grande caráter”, finaliza.
Quem também elogia o trabalho de Jorginho dentro das quadras é Marcelo Gardel Prezzi, do time da Prezzi Imóveis, de Parobé. Fundado no final dos anos 90, o time mais tradicional da cidade ganhou ainda mais força com a chegada de um melhor do mundo. “O Prezzi sempre foi uma equipe muito respeitada na região, e com a chegada do Jorginho, ganhou ainda mais visibilidade”, afirma Marcelo, contando que até os convites para participar de competições se tornaram frequentes.


Títulos e homenagens:
- Campeão Mundial em Hong Kong em 1992;
- Melhor do Mundo em 1992;
- Campeão Russo (foi artilheiro três campeonatos consecutivos);
- Campeão Árabe (Melhor jogador do campeonato);
- Penta Campeão Brasileiro de Futsal;
- Embaixador da FIFA desde 2008.


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