Biografia revela que Brizola procurou Cuba para tentar evitar golpe de 1964

01/08/2026
Fonte: O Globo / Foto: Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa

Fonte: O Globo / Foto: Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa

A jornalista Karla Monteiro já chamara o elevador quando Almino Affonso pediu que ela aguardasse mais um minuto. O ex-ministro do Trabalho de João Goulart, após três longas sessões de entrevistas, queria lhe dar uma dica: “Fale com o Raulito.”

Ele se referia a Raúl Roa Khoury, o jovem embaixador de Cuba no Brasil em 1964, filho do então chanceler Raúl Roa García. É dele uma das principais revelações de “Brizola, volume 1: lobisomem contra o império”, o primeiro tomo de alentada biografia de um dos protagonistas da política brasileira do século XX.

Raulito revelou à biógrafa que, diante do recrudescimento nos dois lados do tabuleiro político do pré-golpe, o cunhado do presidente dera um passo ousado. E o procurara para saber se, em caso de tomada de poder à força pela direita, “poderíamos contar com Havana”. O encontro se deu numa residência insuspeita perto da embaixada, com a presença de Almino. E, afirma o ex-diplomata, Brizola foi direto.

“Ele pediu US$ 500 mil da época (cerca de US$ 5,3 milhões hoje, ou R$ 26,5 milhões) para o seu movimento. Solicitei imediatamente viajar a Cuba para falar pessoalmente com o primeiro-ministro.” Assim foi feito e, após a repercussão do Comício da Central do Brasil, em que Jango moveu seu governo decididamente à esquerda, Fidel avaliou que “ou bem ele tem tudo amarrado com militares, dirigentes sindicais e políticos, ou Goulart não dura mais um mês no poder”. E determinou que seu embaixador regressasse imediatamente com a resposta a Brizola. Os militares, no entanto, moveriam as peças do tabuleiro bem mais rapidamente, e em oito dias o presidente seria deposto.

Não houve tempo para Brizola receber a notícia de que a ilha não só entregaria de bate-pronto metade da ajuda pedida, como incluiria a oferta pessoal de Che Guevara para comandar uma eventual resistência armada. “Como Brizola estava no Rio Grande do Sul, não pude vê-lo para entregar a mensagem de Fidel, com a ajuda prometida e a proposta de Che”, contou Raulito.

 

‘Che poderia ter vindo’

Almino confirmou a história e disse que jamais a revelara anteriormente por contingências que incluíam a própria reinvenção política de Brizola durante o exílio e inevitáveis questionamentos relacionados à soberania nacional, parte central de seu apelo.

– Se Roa tivesse voltado ao Brasil a tempo, Che poderia ter vindo organizar a resistência com Brizola e morrido aqui. Ou não. De qualquer forma, teria mudado a história da América Latina – diz Karla Monteiro.

O restante é História. E é ela que serve de guia para a jornalista, que destrincha a trajetória de Leonel de Moura Brizola (1922-2004), da infância pobre no interior gaúcho e sua preocupação com a educação pública até o retorno ao Brasil, em 1978, uma década e meia após o exílio forçado pelos militares. Ficarão para o segundo tomo a fundação do PDT, as duas passagens pelo governo do Rio de Janeiro, a candidatura à Presidência da República em 1989 e a ascensão à esquerda do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Antes de retornar quatro décadas, para destrinchar os primeiros passos de Brizola e as raízes do trabalhismo, o livro começa em 1962, com a encampação, pelo então governador gaúcho, da subsidiária da americana International Telephone & Telegraph (ITT), por ele incorporada à recém-criada Companhia Rio-Grandense de Telecomunicações (CRT). Ato que o governo de John F. Kennedy equipararia às estatizações de empresas de seu país em Havana após a Revolução Cubana, três anos antes, no auge da Guerra Fria.

O lobisomem do título do livro é referência à alcunha dada ao político por conta do programa que comandava na Rádio Farroupilha. Inicialmente com o objetivo declarado de prestar contas de seus governos na Prefeitura de Porto Alegre e no Palácio Piratini, se revelaria peça central para a Cadeia da Legalidade. A mobilização comandada por Brizola garantiu, em 1961, a posse do então vice-presidente João Goulart, irmão de sua mulher, Neusa, em missão oficial na China, quando da renúncia de Jânio Quadros. O resultado imediato seria o único e curto experimento parlamentarista da República no Brasil.

Após o rompimento com o inimigo íntimo Jango, especialmente pelo presidente deposto não ter optado pela repetição de 1961 três anos depois, cioso em evitar uma guerra civil, Brizola foge para o Uruguai. Outros pontos altos do livro são a recuperação da única entrevista dada pelo político na clandestinidade antes de cruzar a fronteira, a um jovem Eduardo Galeano, mais tarde autor de “As veias abertas da América Latina”, e o passo a passo das ações do ex-governador no país vizinho, incluindo as tentativas frustradas de iniciar o combate armado à ditadura no Brasil e seu envolvimento com os Tupamaros.

 

Em Washington

Também há uma análise do abrigo do governo de Jimmy Carter ao político após a expulsão de Brizola do Uruguai. Em Nova York, o brasileiro se torna símbolo da nova política de defesa dos direitos humanos de Washington, com a denúncia dos arbítrios das ditaduras do Cone Sul. O gaúcho, por sua vez, migra da pregação da revolução latino-americana para a social-democracia do outro lado do Atlântico, afinado com Mario Soares, François Mitterrand e Willy Brandt.

O livro termina com uma reflexão sobre o efeito direto do processo de radicalização de Brizola a partir do suicídio de Getúlio Vargas em 1954, que pode ter retardado ou involuntariamente acelerado o golpe dez anos depois.

 

Brizola Vol. 1: Lobisomem contra o império

Autor: Karla Monteiro

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 456

Preço: R$ 99,90


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