Por Alan Caldas (Editor)
Na segunda-feira, 31 deste 2026, um avião com 151 pessoas saiu da pista durante pouso em Cascavel, no Paraná. Ninguém ferido. Mas lembrei de um pouso inesquecível que fizemos nesse mesmo aeroporto, lá no ano de 1994.
Eu voltava de Brasília numa reunião da Abrajori, a Associação Brasileira de Jornais, na qual era tesoureiro
Numa conexão em São Paulo, peguei um voo para Cascavel em um avião menor, desses de 30 lugares e com hélices ao invés de turbina.
A aeronave era a que aparece na foto, um EMB 120 Brasília, um avião bimotor turboélice.
No voo estavam, além de mim, 29 pilotos de corrida que iriam disputar o prêmio no autódromo de Cascavel naquele fim de semana.
Em São Paulo eu havia participado do lançamento da Fundação Ayrton Senna, no Edifício Itália, e a Viviane, irmã do Ayrton, me deu de presente um “Senninha”, o bonequinho símbolo das muitas campanhas que a Fundação Senna a partir de então passaria a promover.
Peguei o bonequinho, agradeci e me preparei para levar ele para meu afilhado Felipe Menim Geteins, então ainda garotinho, e que junto ao pai Nestor e a mãe Berenice morava em Cascavel.
O voo iniciou e foi bem o tempo todo. Então avistamos as luzes de Cascavel e o piloto avisou o pouso em instantes.
Eram 20 horas, mais ou menos. Já noite.
O pequeno avião fez uma volta, se aprumando para a descida, o piloto mirou a pista e como uma flecha se lançou em direção ao pouso.
Quando estava quase tocando a pista, de surpresa, sem aviso, vindo como que do nada, uma violenta lufada de vento pela proa jogou o avião para a direita.
Tchê . . . que susto!!!!
O piloto, igualmente pego sem sobreaviso, manobrou para lá e para cá e arremeteu, voltando a subir.
Avisou pelo fone que tínhamos pego um vento, etc. e tal, e que faria novo pouso.
Aí tudo ficou mais assustador. É que no primeiro todos fomos pegos de surpresa. Neste segundo, porém, era como se fosse morte anunciada.
Nenhum dos 30 passageiros estavam, digamos assim, “tranquilões” como estávamos todos na primeira tentativa de pouso.
A aeronave fez uma volta na cidade e, no meio da segunda volta, virou o bico para a pista iluminada lá embaixo e, como uma águia faminta que vê a caça, se lançou novamente ao pouso.
Na descida, se escutava lá fora o farfalhar das hélices do avião em descida. E dava para sentir a tensão de 60 mãos cravadas na alça dos bancos. E então a nave desceu como um flecha.
Foi descendo, descendo, descendo e quando chegou quase no solo, miiiinha nooossa, outra golfada de vento joga a aeronave para o lado novamente.
Foi um sonoro “ohhhhhhhh” de todos os 30 passageiros.
E novamente o piloto arremeteu e subiu ao céu, com os corações todos ali dentro do avião batendo tão alto que quase dava para se ouvir.
Já lá em cima, o capitão avisou que faria uma “última tentativa” e que, se não desse, iríamos pousar em Foz do Iguaçu, que fica a 120 quilômetros de Cascavel.
Ninguém fala. Aliás, quase ninguém respirava. Pense num silêncio de cemitério. Era o som do silêncio tudo que se “escutava” naquele avião.
Lá em cima o piloto deu uma volta ao redor de Cascavel.
Deu outra volta ao redor de Cascavel.
Deu uma terceira volta e, no meio dessa, embicou o avião na direção da pista.
Testou os equipamentos e então se lançou como uma flecha em direção ao asfalto.
Respirei fundo.
Pensei nos pecados.
Em tudo que fiz.
Em tudo que me fizeram.
E encomendei a alma.
Creio que todos ali encomendaram.
Então, com as hélices nas duas asas do Brasília fazendo aquele ronco típico e rouco, o piloto se aproxima do solo e, com um estrondo, joga o avião na pista do aeroporto...
Sinto as rodas tocarem o solo e me firmei tudo que dava no banco, só esperando o avião deslizar na pista e lançar todos nós nos braços do demônio. Juro, mas juro que esperei a morte.
Descemos.
Vivos todos. E Todos rindo.
Todos corajosos. E pálidos como quem já morreu ou viu a cara da morte.
Andei milhares de horas em avião, antes e depois daquilo, mas jamais esqueci o pouso daquela noite lá em Cascavel.