Enchente motivou pelo menos 349 mil gaúchos a mudar de casa, revela IBGE

02/07/2026
Fonte: GZH / Foto: Ricardo Stuckert / PR

Fonte: GZH / Foto: Ricardo Stuckert / PR

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base em uma metodologia inédita apurou que ao menos 349 mil moradores do Rio Grande do Sul mudaram de casa em razão da tragédia climática de maio de 2024. É como se uma cidade inteira do porte de Canoas tivesse se deslocado.

O levantamento detalha a dimensão dos impactos e revela que, embora tenham afetado todas as classes sociais, atingiram com gravidade um pouco maior a população em menores faixas de renda.

De acordo com os 4,3 mil questionários aplicados pelos pesquisadores, 88% dos domicílios localizados nas regiões mais castigadas pela enchente sofreram algum tipo de dano ou transtorno, como estragos estruturais, falta de água, luz ou inundação. O trabalho demonstra ainda que, em quase 70% das residências, ao menos um morador relatou ter sofrido abalo psicológico.

A pesquisa, divulgada na manhã desta quarta-feira (1º), foi feita de forma inovadora. Pela primeira vez, o IBGE mensurou as consequências de desastres naturais diretamente junto ao público atingido. Para isso, aplicou questionários por telefone, em uma metodologia assistida por computador, em moradores de 133 municípios classificados como os mais penalizados pela tragédia.

– Nós já tínhamos muitos dados, mas a população em si ainda não havia sido ouvida. E é importante que seja ouvida para ajudar a traçar políticas públicas. Nossa intenção era saber como estava a qualidade de vida das pessoas após a enchente, também como uma forma de não deixar o assunto morrer – afirma a coordenadora do trabalho, Juliana Paiva.

As consultas se concentraram nas regiões de Porto Alegre, Caxias do Sul, Santa Cruz e Lajeado, Pelotas, Santa Maria e Uruguaiana, Ijuí e Passo Fundo e seus arredores, onde vivem 6,3 milhões de pessoas. Os entrevistados relataram que 53% dos domicílios nessas áreas sofreram algum grau de dano estrutural – dos quais 3,5% foram destruídos. Juliana afirma que os efeitos da cheia foram percebidos por todos os estratos socioeconômicos, mas os dados indicam que famílias com rendas menores foram impactadas em nível um pouco maior.

Entre os gaúchos que mudaram de endereço especificamente por conta da enchente (5,5% da população abrangida), nove em cada 10 relataram danos estruturais em suas casas. Esses estragos foram mais frequentes justamente entre a parcela que recebe até R$ 2 mil mensais: embora os domicílios nessa faixa de rendimento representem um quarto do total, somaram 31% dos imóveis com danos.

Além disso, totalizaram 34% das residências que ficaram inacessíveis durante a inundação. O impacto na saúde física também foi mais grave entre os mais pobres: um terço relatou problemas devido à cheia, contra 13% entre a população em geral.

Para a pesquisadora do IBGE, os efeitos do fenômeno climático acabaram afetando de forma significativa toda a sociedade gaúcha – a despeito das variações entre faixas de renda:

– O desastre atingiu diferentes níveis socioeconômicos, você não tem uma diferenciação por renda. (O impacto) foi um pouquinho mais alto na classe que recebe até R$ 2 mil por domicílio. Também temos um indicativo um pouco maior de que, nessa faixa, os domicílios foram avaliados com mais danos.

 

Interrupções na educação e no trabalho

O levantamento do IBGE confirma ainda que a enchente de 2024 provocou interrupções extensivas no trabalho e no estudo dos gaúchos. Os dados demonstram que 79% dos estudantes precisaram suspender a frequência a algum nível de ensino. Porém, quando a pesquisa foi realizada, entre setembro do ano passado e fevereiro, 95% dos prejudicados haviam retomado a rotina escolar.

– Foi um percentual muito significativo que deixou de frequentar (estabelecimento educacional) devido às enchentes. A boa notícia é que voltamos ao mesmo patamar de antes – analisa Juliana.

Em relação ao trabalho, 56% das pessoas que desempenhavam alguma atividade precisaram se ausentar do serviço – cerca de 1,7 milhão de gaúchos. Segundo o IBGE, a retomada da economia também permitiu voltar ao patamar anterior. Quase metade dos trabalhadores, porém, relataram alguma perda de rendimento devido à catástrofe climática.

Juliana Paiva afirma que houve tentativa de contato com cerca de 34 mil domicílios para elaborar o estudo, mas pouco mais de 23 mil tentativas de telefonema não foram atendidas. Outros contratempos envolveram recusas de participação ou telefones desatualizados.

Ainda assim, os mais de 4 mil questionários respondidos na íntegra foram considerados um patamar satisfatório de consulta. Para vencer desconfianças e facilitar a operacionalização das entrevistas, também foram usadas mensagens por WhatsApp.

Depois de ser apresentado em Brasília nesta quarta-feira como um modelo para futuras análises de desastres, o trabalho do IBGE será lançado em Porto Alegre, às 10h de sexta-feira (3), na Assembleia Legislativa. 


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