Ambrósio e Judith: os raros laços do mundo animal

20/12/2025
(Fotos: Arquivo pessoal)

(Fotos: Arquivo pessoal)

A aventura começou no dia 7 de novembro, uma sexta-feira, no apartamento de Adriana Passos Souza, com uma visita inesperada. No parapeito da sacada, à janela, um pássaro azul com olhar curioso e peito estufado de coragem.

A gata dona do recinto, Judith, o encara, e movida pelo instinto felino, dá alguns tapinhas na janela, tentando alcançá-lo. Sem sucesso devido ao vidro que os separava, apenas aceita.

Amante da natureza, Adriana comenta sobre a felicidade daquele pequeno momento. “Fiquei tão feliz com aquela doce visita, ao ver ele tão mansinho, que me aproximei e ele não fugiu. Era uma grande oportunidade de pegar meu celular e tirar uma foto com a minha gata Judith”, conta.

No dia seguinte, 8, o pássaro retornou, num sábado chuvoso, e é quando recebe seu primeiro alimento: uma banana. “Não sabia o que dava para esse tipo de passarinho. Mas, após algumas postagens, seguidores meus começaram a enviar mensagens sobre o nome do passarinho e tudo que ele comia”, relembra.

Após algumas pesquisas, deu-se o veredito da espécie: um saí-andorinha macho, conhecido pelo nome científico Tersina Viridis.

 

O DIA A DIA

Ao longo dos dias, o pássaro voltou, dando pequenos pulos ao longo do parapeito, às vezes pela manhã, às vezes à tarde. E, segundo ela, a primeira vez do dia em que ele aparece é às 5h, amanhecendo com a família.

Para saber se ele já chegou, Adriana fica atenta aos barulhos, sabendo que o pássaro dá leves bicadinhas no vidro, pronto para receber seu cafezinho.

Virou rotina acordar cedo para cortar um pedaço de mamão e deixar na janela. Judith, a gata, também se adaptou. Como já era costume, ela come sua ração, mas agora acompanhada e próxima ao novo amigo.

 

MOMENTO TENSO

Conforme os dias passaram, a janela ficou entreaberta no meio da manhã, após o pássaro já ter ido embora. Momentos depois, ela ouviu um barulho de batida no outro vidro da casa, o da sala. O passarinho havia entrado.

Para evitar que ele fosse caçado, já que vidros não os separavam mais, levou a gata para o quarto. “Ele ficou meio tonto. Sabendo que gatos são predadores de passarinhos, logo a tirei. Fiquei preocupada e cuidei dele, mas com medo que não fosse mais voltar”, comenta.

Naquele dia ele não voltou mais. Contrastando o receio dela, no seguinte ele já estava lá, esperando pelo seu café da manhã, do seu lado do vidro.

 

FORMANDO IDENTIDADE

Com as postagens diárias em seu Instagram após quatro semanas seguidas de visita, e cada vez mais comentários que aguardavam pelo pássaro, Adriana decidiu fazer uma enquete para decidir um nome. “Meu marido, Michel, escolheu o nome, Ambrósio, assim como escolheu o da nossa gata. A partir da aprovação das pessoas na enquete, ficou decidido assim” conta.

Adriana, aliás, cita o livro de Jorge Amado “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”, que descreve uma relação parecida, de um amor impossível, como o gato que se apaixonou pela andorinha.

 

SOBRE O PÁSSARO

O saí-andorinha, conhecido cientificamente como Tersina viridis e em inglês como Swallow Tanager, é uma ave de cores vibrantes encontrada na América do Sul. Os machos têm uma plumagem azul-turquesa intensa, enquanto as fêmeas exibem tons de verde mais discretos.

Este pássaro habita florestas tropicais e subtropicais. Alimenta-se principalmente de frutos, mas também consome insetos. A combinação de suas cores e seu comportamento ágil o tornam uma espécie fascinante para observadores de aves, segundo postagem do perfil @jardimdaamazonia no Instagram.

De acordo com informações colhidas do livro “Aves da Rota Romântica Mata Atlântica”, do dois-irmonense André Luiz Wittman (in memoriam), ele mede de 14 a 16 cm da ponta do bico até a ponta da cauda, e pesa de 30 a 32g. De porte aproximado ao de um sanhaço-cinzento (Thraupis sayaca), é uma ave rara na região da Rota Romântica, mas com uma certa visibilidade. A maioria dos registros ocorrem nos meses de outubro a março, geralmente solitário ou em casais, e mais raramente em pequenos bandos de até quatro indivíduos.

 

ESPECIALISTAS NO ASSUNTO

Segundo a bióloga Ivana Soligo Collet, é intrigante ver animais de espécies diferentes, e até mesmo de dinâmica ‘caça e caçador’, tendo esse tipo de relação. “O gato deveria ter o instinto de tentar caçar o passarinho, que por sua vez deveria fugir. Acredito que nenhum se sente ameaçado e se acostumaram com a presença um do outro”, explica.

Para ela, não existe uma relação afetiva, e sim de respeito. “Na natureza, os animais atacam e se defendem. O gato instintivamente caça passarinho, não é fome, é pelo instinto animal”, exemplifica.

O empresário e passarinheiro – ornitólogo, Luiz Felippe Wittmann, comenta que o pássaro é pouco frequente à vista. “Em 10 anos, eu avistei este pássaro somente três vezes, sendo elas em Dois Irmãos, São Carlos (SC) e Derrubadas (RS)”, conta.

Para ele, o comportamento de Ambrósio é incomum, sendo identificados em sua grande maioria como ariscos. “Pode ser que o pássaro se comporte conforme soltura ou escape, que é um termo que utilizamos, e é possível que esteja fora de seu habitat normal”, explica.

A relação dos animais é indefinida, devido a um fenômeno comum da natureza. “Não se sabe o quanto a ave possa estar enxergando o gato, devido a uma condição de visão que planifica. Talvez ele enxergue somente o seu reflexo, e não entenda que tem perigo ao lado”, comenta.

Luiz Felippe esclarece o caso com um exemplo: “Teve momentos em que eu estava dentro do carro e um pássaro bicava o vidro; talvez, se eu estivesse do lado de fora, da mesma distância, ele se afugentasse”.

Ele comentou com Adriana que esse avistamento é interessante, pois além do macho, pode-se avistar a fêmea. “O fato de que ela não se aproxima pode ser um sinal de escape ou soltura de gaiola, devido à afinidade do macho com o ser humano”, reforça.

Ele também deixa claro que os gatos domésticos são os maiores predadores de aves, com grandes números de caças ao longo do ano. “Estima-se que os gatos domésticos de vida livre (incluindo gatos de estimação que saem e gatos selvagens/ferais) matem entre 1,3 e 4,0 bilhões de aves por ano globalmente, embora a maioria dos estudos e números citados se concentre especificamente nos Estados Unidos”, destaca.

Luiz Felippe coloca-se à disposição de ajudar aqueles que, assim como Adriana, presenciam essas visitas ou se deparam com pássaros inusitados no dia a dia. Para contato, o e-mail é luizfelippew@gmail.com.


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