Atleta de Morro Reuter viajou a convite da sua patrocinadora Fila (Fotos: Romulo Cruz)
No final do mês de junho, a corredora Marlei Willers, de Morro Reuter, esteve no Quênia, considerado o berço dos atletas de corrida. Ela viajou a trabalho, a convite da patrocinadora Fila, para a gravação do lançamento de um produto.
Marlei viajou no dia 21 e voltou no dia 29, ficando na cidade de Iten. Em entrevista ao JDI, a multicampeã de 47 anos relatou como foi a experiência no país africano e quais as próximas provas que deve disputar em 2025, entre elas a Maratona Sul-Americana em Assunção, no Paraguai, no próximo dia 31. A convocação da Confederação Brasileira de Atletismo ocorreu na última quarta-feira (30).
Vale lembrar que Marlei tem no currículo os títulos da Maratona Internacional de Porto Alegre (2023), da Maratona Fila em São Paulo (2022 e 2023) e da Maratona de Curitiba (2022), além de ter sido a melhor brasileira na Maratona de Berlim, na Alemanha, no ano passado.
Como você descreve a experiência no Quênia?
Marlei – Um choque de realidade. Por mais que temos informações e vemos as imagens, na hora em que você chega lá é completamente diferente. A realidade deles é muito diferente da nossa, em termos estrutura e cultura.
Por que o Quênia faz tantos corredores campeões?
Marlei – Acredito que porque se descobriu que geneticamente o corpo deles foi desenhado para a corrida. Também tem a questão da altitude, e o principal: eles encontraram na corrida uma oportunidade de viver melhor.
O que mais chamou sua atenção na forma de correr e nos treinos dos quenianos?
Marlei – É engraçado dizer que os quenianos tem o básico lá que aqui nós não temos: espaço, tempo e clima. Tecnicamente, a forma de treinar, pelo pouco que pude acompanhar, é exatamente como a nossa, o que muda é a forma com que conseguem colocar na prática. Eles treinam de duas a três por dia, se alimentam com o básico e dormem muito. Vivem para correr e colher seu próprio alimento. São muito limitados em termos de oportunidades, então se agarram à corrida com todas as forças, pois ela trouxe para eles a esperança da oportunidade.
Esteve ou treinou com alguma atleta famoso do Quênia?
Marlei – Só estive próxima da recordista mundial dos 10 mil metros e campeã olímpica Beatrice Chebet. Lá não se tem essa de famoso ou não existe os que fazem e compartilham o que recebem e o que aprendem com os outros. Eles são um povo muito limitado, onde o material não é acumulativo e sim repartido.
Como está sendo a sua temporada de 2025?
Marlei – Meu ano de 2025 está sendo incrível, de muito trabalho e viagens (treinões, palestras etc.). Porém, o primeiro semestre foi de pouca competição. Eu estava inscrita na Maratona da New Balance, que ocorreu em abril, e pela primeira vez na minha carreira desisti da prova no km 27, pois me senti mal e não tive condições de seguir.
Quais os próximos desafios até o final do ano?
Marlei – Vou para a Maratona Fila (São Paulo), no dia 24 de agosto, e em novembro vou para Nova York (Estados Unidos) fazer o Mundial Master de Maratona.
Quantos títulos já soma na carreira e quais foram os principais?
Marlei – Já foram mais de 80 provas, sendo campeã em 64 delas e sete vezes vice. Em três anos, fiz oito maratonas, conquistando pódio geral em sete delas. Em uma maratona em nível mundial, me consagrei como a melhor brasileira no evento (Maratona de Berlim, em 2024). São 78 disputadas no Brasil e duas no exterior; 62 disputadas no Rio Grande do Sul e 13 em outros estados. É difícil falar em uma prova como principal, pois cada uma delas faz parte de um momento único na minha carreira. Mas com certeza essas, de uma forma profissional, me trouxeram um direcionamento em nível nacional: Meia Maratona de Porto Alegre 2022, onde conquistei o índice para largar nos pelotão de Elite; Maratona de Curitiba, que me apresentou para o Brasil e me trouxe o retorno financeiro de quatro anos de investimento; Maratona de Porto Alegre, minha consagração como atleta e como pessoa, a colheita de uma vida dedicada ao esporte; e Maratona de Berlim. Aos 46 anos, fazer uma maratona em nível mundial e ficar em 49º lugar entre 18.528 atletas, com toda certeza é muito mais do que eu poderia imaginar.
O que você ainda sonha realizar no mundo das corridas?
Marlei – Tenho muitos sonhos: fazer as 7 maiores maratonas do mundo – uma já foi (Berlim) e agora, em dezembro, vou para a segunda (Nova York), então só vão faltar cinco (Tóquio, Boston, Londres, Chicago e Sydney); representar o Brasil em algum campeonato, pois desde criança uma das maiores emoções para mim era ver os atletas com a camiseta do Brasil cantando o hino; bater minha própria marca na maratona (2:40:59). E o maior desejo é poder cada vez mais representar e apresentar o esporte para as pessoas, dizer o quanto ele é transformador e pode mudar a rota das nossas vidas. O esporte faz bem para o corpo e aquieta a alma. Tenho a obrigação, como atleta e como cidadã, de contribuir; eu preciso assumir a responsabilidade de fazer... Quis Deus que fosse através da corrida, e eu sou grata a ela todos os dias, porque ela me ensinou a ser um ser humano melhor e me fez entender o quanto eu posso e quero contribuir para a construção de uma sociedade mais consciente, saudável e feliz.