Antes da primeira garfada, vem a foto: como a estética mudou a forma de comer

04/06/2026
Fonte: O Globo / Foto: Pixabay

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Antes da primeira garfada, vem a foto. Para a chef brasileira Cândida Batista, que atua em uma cozinha selecionada pelo Guia Michelin em Viena, na Áustria, esse hábito revela uma mudança profunda na forma como as pessoas se relacionam com a comida. Ela observa que, cada vez mais, a escolha do que comer é influenciada pelo que circula nas plataformas digitais, tornando a estética dos pratos um fator tão decisivo quanto o sabor.

A profissional afirma que a relação entre gastronomia e imagem sempre existiu, mas ganhou outra dimensão com a popularização de plataformas como Instagram e TikTok. Pratos coloridos, sobremesas chamativas e apresentações elaboradas passaram a disputar atenção em um ambiente em que a permanência é breve e o impacto visual costuma vir antes da experiência.

No dia a dia do restaurante, Cândida percebe essa mudança de forma clara. Muitos clientes chegam já decididos sobre o que vão pedir, após terem visto os pratos nas redes. “É muito comum ver pessoas fotografando a comida antes mesmo de experimentar. Em alguns casos, a decisão já foi tomada muito antes de chegarem ao restaurante. A imagem cria uma expectativa e desperta uma vontade quase imediata de consumir aquilo”, diz.

Na avaliação da chef, os algoritmos deixaram de apenas sugerir conteúdos e passaram a influenciar diretamente o que chega às mesas. Receitas virais surgem rapidamente, se espalham por diferentes países e, em pouco tempo, são substituídas por novas tendências — em um ciclo acelerado que já faz parte da gastronomia contemporânea.

O problema, explica ela, não está na exposição digital em si, mas no momento em que a experiência passa a ser construída exclusivamente para a imagem. “A apresentação faz parte da gastronomia e sempre vai ser importante. O prato precisa ser bonito, mas não pode existir apenas para a foto. Quando a aparência se torna mais importante do que o sabor, a gastronomia deixa de ser experiência e passa a ser apenas imagem”, analisa.

Mesmo em restaurantes de alto padrão, ela nota uma atenção crescente ao impacto visual dos pratos. Ainda assim, reforça que a essência da cozinha permanece na combinação de técnica, textura, aroma e equilíbrio, elementos que uma imagem não é capaz de traduzir por completo. “Uma imagem pode despertar curiosidade, mas não reproduz o que a pessoa sente quando prova um prato pela primeira vez”, destaca.

Apesar das críticas ao excesso de influência digital, Cândida reconhece que a internet também ampliou o acesso à gastronomia. Receitas, técnicas e ingredientes antes restritos a ambientes profissionais passaram a circular amplamente, estimulando o interesse por novas culturas e incentivando o ato de cozinhar.

Para ela, o equilíbrio está na forma como essas duas dimensões se encontram. “A foto pode despertar a vontade de conhecer um prato, mas não deveria ser o principal motivo para escolhê-lo. Se a melhor parte da refeição acontece na tela do celular e não à mesa, talvez estejamos esquecendo que comida foi feita para ser vivida, não apenas fotografada”, conclui.


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