(Fotos: Divulgação)
Você abriria mão do seu emprego e da sua casa para se aventurar em uma vida nômade sobre rodas, deixando para trás conforto e estabilidade?
Pois é isso o que está fazendo o casal Diana Cristina Rossa Müller, 42 anos, e Felipe Neubert Müller, 41. Ao lado da filha Isabela Rossa Muller, 9 anos, eles planejam uma viagem de um ano pela América do Sul a bordo de um motorhome.
Natural de Dois Irmãos, Diana é professora e psicopedagoga. Felipe é engenheiro eletricista e nasceu em Osório. Ele trabalhava no Pólo Petroquímico e ela atendia como psicopedagoga aqui na cidade. Isabela nasceu em Novo Hamburgo e sempre morou em Dois Irmãos com a família.
Na entrevista a seguir, o casal fala das suas experiências na estrada e dos desafios que vêm por aí – a expectativa é iniciar a viagem em maio. Isabela também conta o que acha do estilo de vida da sua família.
Como nasceu a ideia de adaptar um veículo para viajar juntos?
Sempre gostamos muito de viajar de férias, iniciamos acampando bastante. Quando a Isabela era bebê, sentimos a necessidade de um pouco mais de estrutura e compramos nosso primeiro trailer, carinhosamente apelidado de Corujita. Viajamos algumas vezes pelo Brasil e pela América do Sul, quando percebemos que o mundo é muito grande e ainda temos muitas coisas para conhecer. Vendemos o trailer, compramos uma Transit baú e nós mesmos construímos nossa nova casinha, carinhosamente conhecida como Fera, afinal, já tínhamos a Bela.
Como escolheram o modelo do veículo e o estilo motorhome que criaram?
Assistimos a vários canais no YouTube onde pessoas comuns como nós montavam seus motorhomes em todo tipo de veículo. Unos, Kombis e Fuscas viravam carros de expedição. Nos interessamos pelos modelos feitos em caminhões pela praticidade da montagem. Um baú é todo “reto”, ortogonal, o que facilita a montagem; diferente de uma van, onde geralmente a carroceria tem formatos curvos e mais difíceis de serem executados. Dentre as opções, nós queríamos um modelo que tivesse tração traseira, uma preferência nossa para ter melhor desempenho em locais de difícil acesso. Escolhemos a Ford Transit pois cabia no nosso orçamento e oferecia conforto e segurança de carro, com freios ABS, airbag e ar condicionado na cabine. Itens pouco comuns em outros modelos do mesmo ano e valor dela. Montamos toda a “casa” conforme nossa experiência com o trailer e alinhado às nossas necessidades. Os tanques de água, o tipo e funcionamento do aquecedor de água para o banho, o sistema elétrico, tudo foi pensado para termos autonomia na estrada e conforto de uma casa fixa.
Qual foi o maior desafio durante a adaptação do veículo?
A inexperiência. Tudo foi novidade, erramos muito até chegarmos no resultado que temos agora. Mas faríamos tudo novamente! O custos elevados dos equipamentos específicos para motorhome também são desafiadores. Usamos da criatividade e muitas conversas em grupos de apoio de outros caravanistas para fazermos as adaptações de equipamentos residenciais no carro.
Do que cada um abriu mão para que esse projeto se tornasse realidade?
Muitas horas que seriam de descanso foram ocupadas na montagem do projeto. Finais de semana que deixamos de ir em eventos da família se tornaram comuns. Nos desfizemos de bens materiais adquiridos à custa de muito trabalho para investir na FERA. Outros sonhos e projetos foram postergados para priorizar esse. Valeu a pena e temos muito orgulho hoje da nossa casinha! Nesse momento estamos planejando uma viagem de um ano pela América do Sul. Para entrarmos de corpo e alma, nos dedicando 100% ao projeto, precisamos abrir mão dos nossos empregos atuais, além de vendermos nossa própria casa para custear tudo. Muitas pessoas não acreditam que estamos deixando uma vida de estabilidade e confortos para trás, mas acreditamos que a vida é uma só e este é o momento ideal para fazermos isso. Queremos mostrar à nossa filha que o mundo é grande e merece ser explorado. Temos certeza que a saudade da família e amigos vai apertar conforme formos andando, mas isso também vai fazer dos encontros momentos ainda mais especiais.
Há receio em relação à segurança ou ao conforto durante as viagens?
Rodamos muito por aí e acompanhamos muitas famílias que fazem o mesmo. É preciso atenção, escolher bem o lugar de passar a noite. Hoje existem muitos aplicativos onde viajantes podem consultar locais seguros para ficar, e sempre vale se informar com os habitantes locais também. Ficamos muito em postos de combustíveis e praças onde é permitido estacionar, sempre nos sentimos muito seguros. Com relação a conforto, não falta nada! Nossa casinha tem tudo.
Para vocês, o que significa poder oferecer essa experiência para a filha?
Significa tudo. Mostrar novos lugares, mostrar que existem formas diferentes de se viver, culturas diferentes. Ampliar a visão de mundo que temos.
Como serão os estudos da Bela durante a viagem de um ano?
Matriculamos a Isabela em uma escola dos EUA onde os alunos podem estudar na escola física ou podem estudar de forma remota. Essa escola tem um programa em Português que atende alunos Brasileiros e Portugueses. Dessa forma, ela poderá estudar de qualquer lugar do mundo, com o auxílio dos tutores da escola e dos pais.
Qual viagem foi mais marcante até agora? Por quê?
Fomos até Bariloche, na Argentina, rebocando nosso trailer Corujita. Foram 16 dias e 6 mil quilômetros vivendo em 6m². Adoramos o lugar, as belezas naturais mas sobretudo a aventura que foi pra gente ir tão longe em um trailer tão pequeno. Muitos já foram até de bicicleta pra lá, mas pra gente foi o grande evento, o começo de tudo, onde tivemos o “estalo” de que talvez esse fosse o estilo de vida que queríamos.
Já enfrentaram algum imprevisto grave com o veículo durante uma viagem? Como resolveram?
Muitos! Se tem algo que acontece com todo mundo é defeito mecânico. Tivemos uma quebra de motor por um defeito de quando compramos o carro; ela ficou meses na oficina para resolver. Tivemos outros problemas menores e resolvemos na estrada mesmo, às vezes sozinhos, às vezes com a ajuda de outras pessoas. Dizem que a estrada dá tudo que a gente precisa, e acreditamos que é verdade! Temos alguns manuais de manutenção do carro, Felipe fez cursos de mecânica e uma comunidade enorme na internet que quebram o galho até chegarmos em uma oficina.
O que diriam para outras famílias que têm o sonho de fazer o mesmo?
Se programem, acreditem nos seus sonhos e façam! Não é fácil, não é igual para todo mundo e é preciso abrir mão de muitas coisas. A vida vai passar de qualquer maneira, é importante vivermos ela intensamente.
Se pudessem resumir em uma palavra o que esse veículo representa para a família, qual seria?
Em uma palavra: lar.
Na prática, é mais do que um veículo adaptado, é um estilo de vida. Como isso impactou a liberdade e o estar juntos?
Ainda temos muito a experimentar da vida nômade. O maior desafio vai ser manter as individualidades de cada um e o espaço próprio. Tem uma frase que se vê muito em quem mora assim: A casa é pequena, mas o quintal é o mundo! Então, a sensação de casa pequena é substituída pelo quintal enorme! Gostaríamos de convidar a todos para acompanhar nossas aventuras no YouTube, Instagram, facebook e TikTok: @bela.na.estrada.
*
Com a palavra, Isabela
O que você mais gosta de ter no motorhome que adaptaram?
Mesmo em uma casa tão pequena tenho meu próprio quarto! Assim tenho meu espaço para fazer as minhas coisas.
Sua relação com seus pais mudou de alguma forma depois que começaram a viajar juntos assim?
Gosto muito da ideia de estarmos sempre juntos. Nossa relação sempre foi muito boa e vai continuar assim. Também não vou ficar grudada o tempo todo neles
O que seus amigos acham dessa aventura da família?
Eles acham muito legal e diferente. Também querem fazer algo assim. Uma vez trouxemos neve de um lugar que visitamos na Argentina, guardada em uma garrafa no congelador da geladeira. Levei para a escola e foi muito legal, colocamos em uma bandeja que todos puderam mexer.