Fonte: O Globo / Foto: Pixabay
Olhar uma fotografia em preto e branco de uma cidade desconhecida, ouvir uma música lançada décadas antes do próprio nascimento ou assistir a uma série ambientada em outra época e experimentar uma sensação de saudade pode parecer contraditório. Mas esse tipo de emoção tem sido objeto de interesse da psicologia por mostrar como memória, imaginação e afeto podem se misturar.
O fenômeno é conhecido como anemoia, termo criado pelo escritor John Koenig para descrever a nostalgia por um período histórico que a pessoa nunca viveu. Embora a palavra tenha surgido fora do meio acadêmico, psicólogos relacionam essa experiência à chamada nostalgia vicária, quando alguém desenvolve vínculos emocionais com acontecimentos ou contextos que conhece apenas por relatos, fotografias ou obras culturais.
Existe ainda um conceito semelhante, o hiraeth, de origem galesa, que expressa o sentimento de falta de um lar ou de um lugar idealizado que talvez nunca tenha existido. Enquanto a anemoia está ligada principalmente ao tempo, o hiraeth acrescenta uma dimensão de pertencimento e identidade.
Embora a literatura científica sobre anemoia ainda seja limitada, pesquisas sobre nostalgia ajudam a explicar por que algumas pessoas vivenciam esse tipo de emoção com mais intensidade. Um estudo publicado no periódico científico Journal of Personality analisou dados de 1.923 participantes, entre crianças e adultos, e concluiu que indivíduos com maior propensão à nostalgia também apresentavam níveis mais elevados de empatia afetiva.
Os pesquisadores ainda observaram uma associação entre esse traço e comportamentos pró-sociais, como a disposição para ajudar outras pessoas e fazer doações. Esses resultados sugerem que a tendência de se conectar emocionalmente com o passado está relacionada à capacidade de compartilhar sentimentos e estabelecer vínculos afetivos.
Fotos antigas, músicas de outras décadas, filmes de época e construções históricas estão entre os estímulos capazes de despertar essas sensações. Em muitos casos, a emoção não decorre de uma lembrança pessoal, mas da identificação com uma atmosfera ou com uma narrativa construída pela imaginação.
Para os pesquisadores, esse processo evidencia que o cérebro humano é capaz de criar um sentimento de familiaridade mesmo na ausência de uma experiência direta. Em vez de recuperar uma memória vivida, ele combina referências culturais, emoções e elementos imaginativos para produzir uma sensação de pertencimento.