Um em cada três adolescentes já tem excesso de peso, aponta levantamento

30/05/2026
(Foto: Pixabay)

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Nos últimos anos, desde a pandemia, observou-se no cenário brasileiro e mundial um aumento em casos de obesidade entre crianças e adolescentes. Segundo o Sistema Único de Saúde (SUS), um em cada três jovens de 10 a 19 anos tem excesso de peso.

Dados de 2022 revelam que a região Sul possuía maior número de crianças obesas nessa faixa etária (11,52%), seguida da região Sudeste (10,41%), Nordeste (9,67%), Centro-Oeste (9,43%) e Norte (6,93%).

Para entender melhor sobre fatores e consequências, estilo de vida e papel do ambiente social, o Jornal Dois Irmãos entrevistou a nutricionista Nádia Richter Faber, que é pós Graduada em Emagrecimento e Hipertrofia, tem Especialização em Modulação Intestinal e pós Graduação em Gastronomia aplicada a Nutrição. Confira:

 

A obesidade entre adolescentes tem aumentado nas últimas décadas. O que explica esse crescimento? Quais fatores mais contribuem?

Nádia – A obesidade entre adolescentes vem crescendo por uma soma de fatores que fazem parte da rotina moderna. Mais acesso às telas, menos atividades ao ar livre, se movimentando menos, dormem poucas horas ou sono desregular, têm maior acesso a alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e sódio. Além disso, a correria do dia a dia faz ser recorrente o consumo e a procura por alimentos prontos e refeições rápidas. O problema é que esses hábitos, quando mantidos por muito tempo, aumentam o risco de ganho de peso e prejudicam a saúde metabólica ainda cedo. Outro ponto importante é o aspecto emocional. Ansiedade, estresse, excesso de comparação nas redes sociais e alterações emocionais também podem influenciar diretamente a alimentação e favorecer episódios de compulsão alimentar.

 

Muitos pais confundem o ganho de peso natural da adolescência com obesidade. Como diferenciar o saudável do que já é preocupante?

Nádia – Na adolescência é normal acontecerem mudanças no corpo por causa do crescimento, dos hormônios e do desenvolvimento da massa muscular e óssea. Nem todo ganho de peso significa obesidade. O que preocupa é quando esse aumento vem acompanhado de excesso de gordura corporal, cansaço frequente, dificuldade para realizar atividades físicas, alterações nos exames, baixa autoestima ou piora da qualidade de vida. Outro ponto importante a destacar é sobre as mudanças nos padrões alimentares, que estão sendo modificadas pelo aumento do consumo de açúcares simples, alimentos industrializados e ingestão insuficiente de frutas e hortaliças, e isso está diretamente associado ao ganho de peso dos adolescentes. Por isso, a avaliação não deve olhar apenas para o peso da balança. O acompanhamento com um profissional ajuda a analisar crescimento, composição corporal, hábitos alimentares, exames e histórico familiar de forma individualizada.

 

O excesso de telas, a vida sedentária e a alimentação ultraprocessada são os principais vilões? Como eles agem na prática?

Nádia – O excesso de telas, o sedentarismo e a alimentação ultraprocessada realmente estão entre os principais fatores ligados ao aumento da obesidade na adolescência. Na prática, o adolescente passa mais tempo sentado, dorme menos, se movimenta menos e muitas vezes come distraído em frente ao celular, televisão ou computador. Isso dificulta a percepção de fome e saciedade e favorece o consumo exagerado de alimentos. Os ultraprocessados também contribuem porque são produtos muito calóricos e pouco nutritivos, além de estimularem o consumo excessivo. Refrigerantes, salgadinhos, fast food, bolachas recheadas e bebidas açucaradas acabam entrando na rotina com frequência e substituindo refeições mais equilibradas.

 

O que a família pode fazer, no dia a dia, para prevenir ou reverter a obesidade sem gerar traumas ou transtornos alimentares?

Nádia – A família tem um papel essencial tanto na prevenção quanto no tratamento da obesidade. O mais importante é criar um ambiente saudável sem críticas, punições ou comentários sobre corpo e aparência. Pequenas atitudes fazem diferença: realizar refeições em família, cozinhar mais em casa, incentivar atividade física, melhorar a qualidade do sono e reduzir o consumo de ultraprocessados. O exemplo dos pais costuma ter muito mais impacto do que cobranças. Nada será da noite para o dia, mas a cada dia criam-se novos hábitos e melhora o paladar e a aceitação.

 

A escola tem responsabilidade nesse combate? De que forma?

Nádia – A escola também tem responsabilidade importante nesse processo. Ela pode contribuir oferecendo educação alimentar, incentivando atividades físicas, promovendo ambientes mais saudáveis Quando família, escola e profissionais de saúde trabalham juntos, os resultados costumam ser muito mais positivos.

 

Quais sinais os pais devem observar – além do peso – para perceber que o adolescente está com a saúde prejudicada?

Nádia – Além do aumento de peso, os pais precisam observar alguns sinais importantes que mostram que a saúde do adolescente pode estar sendo prejudicada. Cansaço excessivo, falta de disposição, dificuldade para dormir, ronco, dores nas pernas e nas costas, falta de ar em atividades simples e alterações emocionais são sinais de alerta. Mudanças no comportamento alimentar, isolamento social, irritabilidade e tristeza frequente também merecem atenção.

 

Quais são os principais riscos físicos e emocionais da obesidade nessa fase?

Nádia – A obesidade na adolescência pode trazer consequências físicas e emocionais importantes. Entre os principais riscos estão diabetes tipo 2, pressão alta, colesterol elevado, gordura no fígado e problemas ortopédicos, já que o corpo ainda está em fase de crescimento. No aspecto emocional, muitos adolescentes sofrem com bullying, baixa autoestima, ansiedade, compulsão alimentar e até sintomas depressivos. Por isso, o cuidado deve ir muito além da estética e focar principalmente na saúde e na qualidade de vida.

 

Como conversar com o adolescente sobre o peso sem humilhar, cobrar demais ou gerar compulsão alimentar?

Nádia – Penso que o mais importante é que o adolescente não se sinta julgado dentro da própria casa. Conversas com críticas, comparações ou cobranças excessivas costumam gerar culpa, ansiedade e piorar a relação com a comida. A abordagem ideal é acolhedora e respeitosa. Em vez de focar apenas no peso, a família deve incentivar hábitos mais saudáveis para todos da casa, sem transformar o adolescente em alvo. Eu como nutricionista trabalho de forma humanizada, ajudando o jovem a criar uma relação equilibrada com a alimentação, sem dietas radicais, punições ou terrorismo alimentar.

 

Que mudanças simples na rotina alimentar de uma família já produzem bons resultados?

Nádia – As pequenas mudanças feitas de forma constante já trazem ótimos resultados. Selecionei algumas que considero mais importantes: reduzir refrigerantes e bebidas açucaradas; diminuir o consumo de ultraprocessados; comer mais frutas, verduras e alimentos naturais; fazer refeições à mesa e com menos telas com a família; melhorar a rotina do sono; cozinhar mais em casa; quando pedir delivery, preferir comidas quentes (arroz, bife, batata, carne, saladas) ao invés de lanches (fast food); evitar “beliscos” o tempo todo; experimentar receitas novas. O segredo não está em proibir tudo, mas em criar equilíbrio.

 

Qual a importância da atividade física neste processo?

Nádia – A atividade física também é fundamental, mas ela precisa ser prazerosa. O adolescente não deve enxergar o exercício como castigo. Temos muitas opções hoje em dia, como dança, caminhada, academia, lutas, vôlei, futebol ou qualquer atividade que ele goste. Quando existe prazer, a chance de manter o hábito é muito maior.

 

Além de nutricionista, que outros profissionais devem acompanhar um adolescente com obesidade?

Nádia – O tratamento da obesidade na adolescência funciona melhor quando existe acompanhamento de diferentes profissionais. Além do nutricionista, muitas vezes é importante o suporte de endocrinologista, psicólogo e educador físico. O endocrinologista ajuda a avaliar alterações hormonais e metabólicas. O psicólogo auxilia na autoestima, ansiedade, compulsão alimentar e questões emocionais. Já o educador físico contribui para inserir atividade física de forma segura e adequada. Em alguns casos mais graves, podem ser avaliados medicamentos específicos, sempre com indicação médica e acompanhamento rigoroso.

 

O que você diria a um adolescente que está acima do peso e se sente envergonhado ou desmotivado?

Nádia – O mais importante é começar aos poucos, respeitando seu corpo e entendendo que saúde não é sofrimento. Olhe para sua rotina e veja o que você pode melhorar; buscar ajuda não é motivo de vergonha. Com apoio certo, é possível melhorar a autoestima, a saúde e a qualidade de vida sem deixar de aproveitar a adolescência e a rotina com os amigos. Entender que cada pessoa é única e que os resultados também serão, pois mudanças levam tempo e não precisam acontecer de forma perfeita.

 

Deixe um conselho para as famílias que estão nesta luta diária.

Nádia – Pais não precisam buscar perfeição, e sim constância. Pequenas mudanças feitas em família têm muito mais impacto do que cobranças isoladas sobre o adolescente. Evitem transformar a comida em punição ou recompensa. Criem um ambiente mais saudável dentro de casa, deem exemplo e valorizem cada pequena evolução. O apoio emocional da família faz toda a diferença no sucesso do tratamento.

 

Como agendar uma avaliação?

Nádia – Atendo de forma presencial e on-line. O local de atendimento é na Av. 25 de Julho 1201, Centro de Dois Irmãos – Débora Blume Clínic. O telefone de contato é (51) 99933-6079.


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