OMS: 92% da população global será impactada pelo câncer; entenda

09/07/2026
Fonte: O Globo / Foto: Pixabay

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) avalia que o câncer se tornará uma experiência praticamente universal nos próximos anos. Segundo um levantamento divulgado pela entidade, 92% das pessoas serão impactadas pela doença, seja por um diagnóstico pessoal ou por conviver com alguém em cuidados oncológicos — a exemplo de pai, mãe, companheiros, filhos e irmãos. A estimativa aponta, ao mesmo tempo, que uma a cada cinco pessoas deve receber diagnóstico oncológico nos próximos anos.

O mesmo levantamento, divulgado globalmente ontem, projeta que os diagnósticos ligados à oncologia vão praticamente dobrar até 2050, passando de 20,6 milhões de casos da doença em 2024 para 35 milhões daqui a 24 anos. Será um crescimento de 70%.

No relatório, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, indica que o aumento da vacinação contra o HPV e também programas de controle do tabaco no mundo têm surtido efeito positivo no volume de casos, mas lembra que o câncer figura como uma “crise global em evolução”.

“Enquanto algumas crises de saúde se desenvolvem rapidamente, outras avançam de forma mais lenta. Isso não as torna menos devastadoras. Os dados apresentados neste relatório deixam claro que o câncer é uma crise global em evolução”, escreveu no material. “Em todos os tipos de câncer e em todas as etapas da linha de cuidado oncológico, o progresso continua sendo distribuído de forma desigual e profundamente injusta, tanto entre os países quanto dentro deles.”

A desigualdade não aparece só na fala de Tedros, mas em dados que mostram a expectativa de vida após um diagnóstico do tipo. O documento traz a informação de que a taxa de sobrevivência em cinco anos para o câncer de mama supera 85% nos países de alta renda, mas fica abaixo de 30% em diversos países de baixa renda.

O problema, explica o material, está intimamente ligado à dificuldade de acesso a atendimento de saúde adequado. Pois menos de um em cada três países inclui tratamentos oncológicos em seus pacotes de cobertura de saúde. Ou seja, os cuidados não estão na rede que é acessível à maior parte da população.

O investimento financeiro nessa área, é importante dizer, traz retornos positivos não só do ponto de vista social, mas também tem impacto econômico relevante para os sistemas de saúde. O relatório aponta que a cada dólar investido na prevenção e controle do câncer leva ao retorno de US$ 9,50.

A estimativa é que o impacto do câncer entre 2020 e 2050 nos países esteja próximo a 0,55% do produto interno bruto (PIB) global. A maior parte dessa taxa está ligada à perda da produtividade ligada às mortes prematuras e à incapacitação causada pela doença.

 

Estilo de vida

O material reforça um dado que diz respeito ao estilo de vida: quase 40% dos novos casos de câncer são preveníveis com hábitos saudáveis e evitando fatores de risco. Os fatores que implicam no aumento do risco são o fumo, infecções, consumo de álcool e a obesidade. O tabaco, inclusive, está relacionado a diversos tipos de câncer, como pulmão, laringe, faringe, esôfago, entre outros. Especialistas apontam que o estilo de vida saudável não só tem impacto positivo na redução de casos, mas também traz benefícios para quem já está sob cuidados oncológicos.

A pesquisa, ao mesmo tempo, traz boas notícias. A média global de fumo está em queda. De acordo com a OMS, em 2005 o uso de tabaco foi estimado para 29,4% das pessoas com 15 anos ou mais (45% dos homens e 13% das mulheres). Em 2024, essas taxas foram reduzidas para 19,5% (32,5% dos homens e 6,6% das mulheres), e a prevalência de uso continua diminuindo em todas as regiões.

O aumento de casos de câncer, explica o oncologista Fernando Maluf, diretor médico associado do Centro de Oncologia da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, membro do Comitê Gestor do Centro de Oncologia do Einstein Hospital Israelita e cofundador do Instituto Vencer o Câncer, é bem documentado pela ciência e, de acordo com ele, vem se acentuando.

— A cada década, há de 10% a 20% de aumento de casos, dependendo da região e do tumor. As razões são principalmente duas. O aumento da expectativa de vida da população é a primeira. Sabemos que o câncer é uma doença de maior prevalência a partir dos 50 e 60 anos. Com mais idade, as pessoas estão mais suscetíveis — explica. — O segundo motivo é o estilo de vida, que também impacta de forma muito importante. A obesidade populacional vem aumentando no mundo inteiro, assim como as dietas inadequadas também. A questão da poluição e as infecções, por fim, geram um ambiente cada vez mais relacionado ao câncer.

O aumento exponencial de casos não deve, avaliam especialistas, se refletir imediatamente no crescimento da mortalidade pela doença. Um fator decisivo nesse cenário, explicam os médicos, é o avanço de novos exames e tratamentos para os diferentes tipos de tumores, sobretudo nos países em desenvolvimento.

 

Desafios futuros

A transformação do câncer em uma doença com menor mortalidade, porém, também guarda desafios particulares para os sistemas de saúde. É o que explica Thiago Jorge, oncologista clínico, coordenador do setor de tumores gastrointestinais do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Oswaldo Cruz.

— Vamos lidar cada vez mais com pessoas que tiveram câncer e foram tratadas. Esses tratamentos são tóxicos e podem trazer, inclusive, impactos no futuro, o que é importante notar nos pacientes infantis principalmente — diz o especialista. — Além disso, é importante pensar sobre como o câncer vai impactar as pessoas em idade ativa, como elas serão afetadas financeiramente e se elas podem ser reinseridas no mercado. O que me chama muita atenção nesse relatório da OMS é, de fato, a diferença absurda entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento. E isso não diz respeito apenas aos tratamentos de ponta, mas também a serviços ligados à saúde pública, como acesso às vacinas e à mamografia, ou programas de controle de tabaco.


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