Fonte: GQ Brasil / Foto: Pixabay
A depressão é uma doença mental que atinge em média 12% da população masculina brasileira, de acordo com o Ministério da Saúde. Quando não tratado, o quadro tende a ser recorrente e crônico.
No recorte dos homens, os especialistas apontam que o subdiagnóstico ocorre com frequência, já que eles buscam menos ajuda profissional, da família e amigos. Segundo o Journal of Psychiatric Research, o subdiagnóstico geral no Brasil chega a 63,6%, sendo que para eles é mais acentuado.
Esta é a doença mais associada ao suicídio e, de acordo com o Ministério, ele é quatro vezes maior entre homens do que mulheres – de todas as ocorrências, de 76% a 80% são masculinas.
“Quando o homem está bastante arraigado à expectativa de papel de gênero que comumente recai sobre si, a procura por tratamento psicológico, e a sua adesão, são muito menores”, afirma o psicólogo Guilherme dos Anjos Lemos. “O tipo de masculinidade padrão da sociedade atravanca o trabalho psíquico, pautado (também) pelo contato com o sensível.”
De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde, do IBGE, o índice de depressão saltou de 7,6% da população masculina em 2013 para 10,2% em 2019, o que representa um aumento de, em média, 34,2%. Ao total, são 16,3 milhões de indivíduos diagnosticados.
A ideia de autossuficiência, explica o psicólogo, baseada na percepção de que nada adianta conversar – logo, contar com pessoas próximas ou profissionais – é um entrave. Desde meninos os homens são ensinados a “resolver” e a serem práticos. “Isto gera sofrimento pois, mesmo que falem e compartilhem, só isso necessariamente não resolve a questão – mas com certeza já ajuda.”
Há também a “falácia”, segundo o psicólogo Guilherme dos Anjos Lemos, de que homens precisam controlar as emoções e não demonstrar vulnerabilidade. “Além disso, existe um incentivo a comportamentos de risco, como beber e dirigir, agressividade, impulsividade e condutas sexuais pouco cuidadosas consigo e outras pessoas”, explica. “Dizem que isso é ser homem, não é? E quanto mais fiel se é à esta ideia, maior o sofrimento.”
Eu vim de lá pequenininho
O psicólogo pontua como os meninos são ensinados a serem emocionalmente analfabetos desde os primeiros anos. “Na base, entre eles há uma ideia de competitividade e, ao mesmo tempo, de aliança que não pode ser contrariada. Muitas vezes é ensinado que não se pode criticar, expor e debater um erro do amiguinho - o famoso passar pano - e o seu próprio”, afirma o psicólogo.
Logo, é comum que os homens não tenham familiaridade com o que sentem. “Porém, algumas coisas podem ser experimentadas, como a raiva e outras expressões de violência. É permitido gritar e bater, mas depois tem que engolir o choro.”
Incentivo feminino
A maioria dos homens que chega ao consultório do psicólogo é levada pela companheira ou mãe. Em contrapartida, as mulheres, ao buscarem algum acompanhamento psicológico, normalmente vão sozinhas ou acompanhadas por outras mulheres – dificilmente por uma figura masculina.
“É comum chegar a um ponto em que a companheira deste homem está sobrecarregada, pois normalmente ele não possui rede de apoio, não se abre para amigos, irmãos, primos etc. Tudo recai nela, é uma codependência”, explica Guilherme dos Anjos Lemos.
“Isto fala bastante, ainda que parcialmente, sobre os altos índices de feminicídio no Brasil: se tudo é depositado em uma única pessoa, considerando que há um forte incentivo à violência masculina desde cedo, é preferível perder essa mulher – e se perder – do que aceitar um pedido de separação”, exemplifica.
O Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025 (o maior número da série histórica), além de 848 casos nos primeiros sete meses desse ano, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “As mulheres não deveriam ser as únicas responsáveis por intermediar as emoções masculinas.”
Lobo solitário
Como consequência da formação que pouco valoriza a auto investigação e compartilhamento emocional, o homem tende a se isolar mais – o que agrava quadros depressivos. De acordo com o American Institute for Boys and Men, o tempo gasto sozinho aumentou nas últimas duas décadas independente de gênero. No entanto, eles são mais propensos ao isolamento, aponta a organização.
“O que sustenta isto é uma relação causal: se você não sabe como se sente, como será possível verbalizar para o outro?”, indaga o psicólogo. “Além disso, sem essas competências não dá tampouco para escutar. Aqui é importante destacar a ação de escutar mesmo, não opinar e dar sugestões. Os homens são ensinados a não sustentar um problema com a escuta, mas partir diretamente para uma proposta de resolução”, explica o psicólogo.
Quando se olha para a etimologia da palavra cura, pontua Guilherme dos Anjos Lemos, ela está ligada à ideia de “dar atenção a algo.” Dessa forma, o tratamento – seja para a depressão ou outras questões que acometem o psiquismo - é possível, entre outros fatores, pela associação entre autopercepção, expressão e escuta.
“A habilidade de captar o que é dito demanda uma posição mais acolhedora e menos ativa. O que não quer dizer que, diante um relato aflitivo de um amigo, você precisa se limitar a dizer apenas: ‘É, é foda mesmo’”, brinca o psicólogo. “Comentários do tipo acontecem muito e ilustram bem o analfabetismo emocional, que tem adoecido tantos homens”, finaliza.