Fonte: Autoesporte / Foto: Pixabay
Há algo de nobre no reino da Suécia. E que pode servir de parâmetro para as prometidas — mas não cumpridas — ações para tornar o trânsito brasileiro mais seguro e menos letal. Este é um momento oportuno, uma vez que o tema vem ganhando espaço nas discussões com a proposta do governo de mudar as regras para obtenção da CNH, mas há poucas iniciativas concretas para reduzir a mortalidade nas ruas e estradas.
A solução sueca surgiu de uma conscientização: não é aceitável que erros humanos tenham consequências fatais. Na década de 1990, as mortes no trânsito na Suécia se aproximavam de dez para cada 100 mil habitantes, número dentro dos padrões toleráveis para a época (e inferior aos 36,9 por 100 mil registrados no Brasil no mesmo período).
Mas os suecos não queriam entrar no século 21 com essa mácula e buscaram soluções para tentar reduzir os acidentes, especialmente os atropelamentos e colisões que aumentavam nos meses de inverno. Desse modo, um grupo de estudiosos criou, em 1995, o programa Vision Zero (ou Visão Zero), baseado no princípio de que não existem seres humanos perfeitos. Óbvio, mas nem tanto.
Mais que um programa, o Vision Zero é uma postura ética com foco não apenas no comportamento individual de quem usa as vias de trânsito mas também nas estradas e nos veículos. O ambiente de tráfego em vias urbanas foi reprojetado para proteger os usuários vulneráveis desses espaços, cruzamentos de quatro vias foram substituídos por rotatórias, algumas estradas ganharam barreira central para evitar colisões frontais, comuns em nevascas, e os fabricantes de veículos foram incentivados a tornar seus carros mais seguros.
Os técnicos também redefiniram as velocidades máximas com base em estudos científicos. Por exemplo: nas zonas urbanas, a tolerância humana para um atropelamento é de 30 km/h. Nas estradas, a velocidade considerada mais segura é de 100 km/h. Câmeras passaram a monitorar esses limites — o desrespeito gera pesadas multas e, a depender da gravidade, prisão.
O programa foi aprovado em 1997 pelo parlamento e os resultados comprovaram a eficiência: em 2021, a mortalidade no trânsito sueco caiu para 2,1 por 100 mil habitantes, apesar do aumento do número de veículos no país.
A nova meta é chegar a zero morte nos próximos cinco anos. O Vision Zero passou a ser adotado por outros países europeus, como Holanda e Alemanha, além de Nova Zelândia, alguns estados norte-americanos e canadenses e o estado de Haryana, na Índia, país que em 2024 apresentou índices semelhantes ao do Brasil (12,2 mortos por 100 mil habitantes).
A Suécia é o maior país do norte da Europa. Tem 450.295 km² de área (equivalente ao tamanho de Mato Grosso do Sul), uma malha rodoviária de 573 km, 10,6 milhões de habitantes e uma frota de 4,98 milhões de carros e 292 mil motos.
Não, não dá para comparar com as dimensões ou o nível de educação e renda no Brasil. Mas dá para copiar bons exemplos e adotar medidas básicas, como integrar a disciplina de segurança do trânsito nas escolas (obrigatória na Suécia a partir do Ensino Fundamental). E, claro, ter a consciência de que erros humanos não devem resultar em mortes.