Fonte: Zero Hora / Agência Brasiil – Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do país assinaram nesta quarta-feira (4) o Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio. A iniciativa, firmada em cerimônia no Palácio do Planalto, busca reduzir as estatísticas das mortes de mulheres por questões de gênero. Estão previstas medidas de prevenção, proteção, responsabilização de agressores e garantia de direitos.
O acordo reconhece que a violência contra mulheres no país figura como uma crise estrutural que não pode ser enfrentada por ações isoladas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que, “pela primeira vez os homens estão assumindo a responsabilidade de que a luta pela defesa da mulher não é só da mulher. É do agressor, que é o homem”.
– Cada homem desse país tem uma missão: conversar com amigos, primos, tios, vizinhos, colegas de trabalho, companheiros de bar e parceiros de futebol. Não podemos nos omitir. Vamos desconstruir, tijolo por tijolo, essa cultura machista que nos envergonha a todos. É preciso punir de forma exemplar os agressores, mas também educar os meninos, conscientizar os jovens e os adultos fazendo compreender a gravidade do crime que comete – declarou.
Em sua fala, o presidente lembrou que o ambiente doméstico é palco constante de violência contra mulheres e de feminicídio.
– Morrem por causa de homens que não aceitam ser chefiados por mulheres. Para esses, é preciso dizer em alto e bom som: as mulheres estão conquistando cada vez mais espaços de liderança no mercado de trabalho e vão conquistar ainda mais. Por justiça e por merecimento. Lugar da mulher é onde ela quiser estar – concluiu.
Também participaram da cerimônia em Brasília a primeira-dama Janja da Silva, o vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin (PSB), além dos ministros Rui Costa (Casa Civil), Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), Márcia Lopes (Mulheres) e Anielle Franco (Igualdade Racial).
A cerimônia foi aberta pela primeira dama. Ela leu uma história narrada por uma mulher vítima da agressão de um namorado, espancada em público, mas que não conseguiu a ajuda de pessoas que testemunharam a agressão.
– Essa história poderia ser minha ou de qualquer mulher aqui presente – disse a primeira dama ao pedir que os homens também fiquem ao lado das mulheres vítimas de agressão, quando se depararem com esse tipo de situação.
– Temos todos o compromisso de tornar uma sociedade em que as mulheres podem viver em paz. Queremos vocês, homens, nessa luta, ao nosso lado – completou.
Judiciário e Legislativo
O presidente do STF, Edson Fachin, defendeu que as mudanças não fiquem limitadas à letra fria da lei.
– É preciso agir em várias frentes para prevenir, responsabilizar e proteger as mulheres.
Segundo Fachin, o Poder Judiciário assinou este pacto “com senso de urgência e sentimento de esperança, se comprometendo integralmente com a iniciativa”.
– A verdadeira paz não nasce do medo e do silêncio, mas floresce quando há proteção, liberdade e dignidade – concluiu.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Mota, lembrou que o Brasil fechou o ano de 2025 com uma média de quatro mulheres assassinadas por dia.
– É inconcebível que nós permitamos que esses números continuem a acontecer. Essa ação (prevista pelo pacto) é inadiável – disse ele ao afirmar que o Legislativo atuará visando o endurecimento das leis, no sentido de punir “quem agir dessa forma, seja na violência contra mulher”.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, afirmou que as instituições brasileiras estão unidas em propósitos como este.
– O feminicídio não é apenas uma estatística, mas uma chaga aberta na sociedade brasileira”, que precisa ser tratado como problema de Estado, e não de governo. É o lado mais cruel de uma violência que atravessa, todos os dias, a vida de milhares. E o pacto é, antes de tudo, um compromisso entre as instituições; e uma declaração de responsabilidade do Estado brasileiro, que reafirma um de seus deveres fundamentais, ao combater o feminicídio com o máximo rigor; com prioridade absoluta; e com ação permanente – declarou.
Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025, com ao menos 1.470 registros. O número foi o maior em 10 anos e representa uma média de quatro mulheres assassinadas por dia.
O que está previsto
Com esta aprovação, a expectativa é de que medidas protetivas sejam aplicadas mais rapidamente e com melhor monitoramento. A ideia é que decisões judiciais e assistenciais passem a agir de forma mais coordenada e prática, o que dará foco a casos de baixa repercussão.
O plano de ação prevê campanhas permanentes que envolvem educação para direitos e capacitação de agentes públicos visando contrapor a cultura de violência, inclusive envolvendo homens como parte da solução.
– Agressores responsabilizados com mais rapidez: processos mais céleres, menos impunidade e respostas mais firmes a quem descumpre medidas protetivas ou comete violência.
– Atenção especial a quem corre mais risco: foco em mulheres negras, indígenas, quilombolas, periféricas, do campo, com deficiência, jovens, idosas e moradoras de áreas remotas ou em maior vulnerabilidade.
– Resposta a novas formas de violência: enfrentamento da violência digital, como perseguição, ameaças e exposição online, que muitas vezes antecedem agressões físicas.
– Relatórios periódicos, metas e prestação de contas: o pacto não deve ficar só no anúncio – ele cria obrigação de mostrar o que está funcionando e o que precisa mudar.
O pacto também prevê a criação do Comitê Interinstitucional de Gestão, coordenado pela Presidência da República. O colegiado vai reunir representantes dos três poderes, com participação permanente de ministérios públicos e defensorias públicas, assegurando acompanhamento contínuo, articulação federativa e transparência.
Feminicídios no RS
No Rio Grande do Sul, entre 2012 e 2025, em média, uma mulher foi vítima de feminicídio a cada quatro dias. São 1.285 vidas interrompidas ao longo desses 14 anos. Os dados são da Secretaria da Segurança Pública (SSP) do Estado.
O ano em que o Rio Grande do Sul teve o maior número de casos foi 2018, com 116 vítimas de feminicídio. Naquele período, a média ficou ainda pior e chegou a uma mulher morta a cada três dias. Em 2024, o Estado registrou a média mais baixa, mas, ainda assim, teve um caso a cada cinco dias.
Uma tentativa a cada 31 horas
Quando se olha o número de casos de tentativas de feminicídio, essa soma é ainda maior. Ao menos, 3.698 quase morreram vítimas de violência doméstica no Estado desde que estes casos passaram a ser contabilizados, em 2013. Em média, houve uma tentativa de assassinar uma mulher em contexto de gênero a cada 31 horas.