3 coisas para aprender sobre paciência segundo um dos mais famosos teólogos islâmicos da história

17/11/2025
Fonte: Por Liz Bucar, Em The Conversation*

Fonte: Por Liz Bucar, Em The Conversation*

Desde a infância, somos ensinados que a paciência é uma virtude e que coisas boas acontecem para aqueles que esperam. E, por isso, muitos de nós nos esforçamos para cultivar a paciência. Muitas vezes, tudo começa com a aprendizagem da paciência para esperar a vez de pegar um brinquedo desejado. Na vida adulta, o desafio passa a ser a paciência com longas filas no Detran, com crianças malcomportadas ou com a lentidão das mudanças políticas. Esse esforço pode trazer benefícios para a saúde mental e está inclusive correlacionado com a renda per capita e a produtividade.

Mas, acima de tudo, trata-se de tentar ser uma pessoa melhor. Como estudioso da ética religiosa, é claro para mim que a paciência é um termo que usamos muito, mas cujo verdadeiro sentido poucos compreendem. Nas tradições religiosas, a paciência é mais do que simplesmente esperar ou suportar uma dificuldade. Mas o que há além disso? E de que forma ser paciente nos torna pessoas melhores?

Os escritos do pensador islâmico medieval Abu Hamid al-Ghazali podem nos dar insights ou nos ajudar a entender por que precisamos praticar a paciência – e também quando não devemos ser pacientes.

 

Quem foi Al-Ghazali?

Nascido no Irã em 1058, al-Ghazali era amplamente respeitado como jurista, filósofo e teólogo. Ele viajou para lugares tão distantes quanto Bagdá e Jerusalém para defender o Islã e argumentava que não havia contradição entre razão e revelação. Mais especificamente, ele era conhecido por conciliar a filosofia de Aristóteles, que provavelmente leu em tradução árabe, com a teologia islâmica.

Al-Ghazali foi um escritor prolífico, e uma de suas obras mais importantes, “Reviver as Ciências da Religião” (Iḥyāʾ ʿulūm al-dīn), é um guia prático para viver uma vida muçulmana ética.

Esta obra é composta por 40 volumes no total, divididos em quatro partes de 10 livros cada. A Parte 1 trata dos rituais islâmicos; a Parte 2, dos costumes locais; a Parte 3, dos vícios a serem evitados; e a Parte 4, das virtudes que se deve buscar cultivar. A discussão de Al-Ghazali sobre a paciência encontra-se no Volume 32 da Parte 4, “Sobre a Paciência e a Gratidão”, ou o “Kitāb al-sabr waʾl-shukr”.

Ele descreve a paciência como uma característica humana fundamental, crucial para alcançar objetivos orientados por valores, e apresenta uma ressalva para quando a impaciência se faz necessária.

 

1. O que é paciência?

Segundo Al-Ghazali, os seres humanos possuem impulsos conflitantes: o impulso da religião, ou “bāʿith al-dīn”, e o impulso do desejo, ou “bāʿith al-hawā”. A vida é uma luta entre esses dois impulsos, que ele descreve com a metáfora de uma batalha.

— O apoio ao impulso religioso vem dos anjos que reforçam as tropas de Deus, enquanto o apoio ao impulso do desejo vem dos demônios que reforçam os inimigos de Deus — diz Al-Ghazali. 

A quantidade de paciência que uma pessoa tem determina quem vence a batalha.

— Se o homem se mantém firme até que o impulso religioso conquiste, então as tropas de Deus são vitoriosas e ele se une aos pacientes. Mas se ele enfraquece até que o apetite o domine, une-se aos seguidores dos demônios — afirma o jurista, filósofo e teólogo.

Ou seja, para Al-Ghazali, a paciência é o fator decisivo que define se estamos vivendo à altura do nosso potencial ético e humano.

 

2. Paciência, valores e metas

Para Al-Ghazali, a paciência é indispensável para ser um bom muçulmano — mas sua teoria ética vai além do contexto religioso e pode ser aplicada a qualquer pessoa.

Tudo começa com o compromisso com valores fundamentais. Para ele, esses valores vêm da tradição e da comunidade islâmica (umma) e incluem princípios como justiça e misericórdia. Mas, mesmo fora desse contexto, cada pessoa pode ter seus próprios valores: o compromisso com a justiça social, a honestidade, a amizade, a compaixão.

Viver de acordo com esses valores é o que define uma vida moral. E, segundo Al-Ghazali, a paciência é o que garante que nossas ações permaneçam fiéis a esse propósito.

Isso significa que a paciência não é apenas suportar o choro de uma criança, é suportar com um objetivo. O sucesso não é medido pela dor que suportamos, mas pelo quanto progredimos rumo a uma meta maior, como criar uma criança saudável e emocionalmente equilibrada. Na visão de Al-Ghazali, precisamos da paciência para manter o compromisso com nossos princípios mesmo quando as coisas não saem como esperamos.

 

3. Quando a impaciência é necessária

Uma crítica comum à ideia de paciência é que ela pode levar à inércia ou ser usada para silenciar reclamações legítimas. O estudioso Julius Fleming, por exemplo, em seu livro Black Patience, defende a importância de uma “recusa radical em esperar” diante do racismo sistêmico. De fato, há injustiças e sofrimentos no mundo que não devem ser suportados com calma.

Apesar de seu compromisso com a importância da paciência para uma vida moral, Al-Ghazali também admite a impaciência. Ele escreve: — É proibido ser paciente com o mal (que é) proibido; por exemplo, ter a mão cortada ou testemunhar o corte da mão de um filho e permanecer em silêncio.

Esses são exemplos de danos causados a si mesmo ou a entes queridos. Mas será que a necessidade de impaciência se estende a danos sociais, como o racismo sistêmico ou a pobreza? E, como argumentaram os estudiosos do Alcorão Ahmad Ismail e Ahmad Solahuddin, a verdadeira paciência às vezes exige ação.

E Al-Ghazali também escreve: — Só porque a paciência é metade da fé, não imagine que ela seja totalmente louvável; o que se pretende são tipos específicos de paciência.

Em resumo, nem toda paciência é boa; apenas a paciência que serve a objetivos justos é essencial para uma vida ética. A questão de quais objetivos são justos é uma que cada um de nós deve responder por si mesmo.

 

 

* Liz Bucar é professora de Filosofia e Religião na Universidade Northeastern, nos Estados Unidos.

 

* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o original.


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