Um ótimo momento para “parlar” com as nonas e, em italiano, colocar em dia as notícias da comunidade de Nova Roma
Em 1995 o então prefeito Aldo Panazzolo, de Nova Roma, na Serra gaúcha, resolveu criar um evento que chamou de La Prima Vendemmia, expressão que significa, em português, “a primeira colheita”.
A festa tinha tudo para dar certo, porque Nova Roma, com 3.466 habitantes, plantou no ano de 2025 nada menos que mil hectares de uva, resultando em 40 milhões de quilos de uva.
Desde o começo a La Prima Vendemmia foi acumulando sucesso. Mas aí veio a pandemia e ela fechou as portas dos eventos. Não bastando a maledetta pandemia, veio, na sequência, a desgraça das enchentes, que acertou Nova Roma em cheio, derrubando até a ponte e ilhando o município.
Porca miséria! Che sfortuna! Che sfiga! Que azar! Era só isso que se ouvia dos amigos ítalo-brasileiros que povoam Nova Roma.
A água derrubando a ponte era de desacorçoar. E parecia, mesmo, que era o fim da pequena Nova Roma.
Era o fim. Mas, aí alguém da cidade, o seu Tranquilo Tessaro, que lá é conhecido pelo apelido de Nico, meio que no desespero tomou a frente. E, com altivez e coragem, seu Nico gritou a frase que traria de volta a força inabalável dos primeiros imigrantes italianos, dizendo:
– Nós seremos covardes se não construirmos esta ponte!
Era o que faltava. O grito do seu Nico encontrou eco no peito, nos músculos e nos cérebros de cada morador. Despertou na comunidade a coragem necessária para seguir em frente e mudar radicalmente o rumo da história.
E olha o que aconteceu:
A ponte, que o governo do Estado dizia só conseguir refazer em 15 meses e a um custo absurdo de 22 milhões, foi reconstruída pela própria comunidade em 138 dias. E a um preço de 6 milhões, ou seja, menos de 30% do que haviam orçado o governo do Estado e as empreiteiras.
A comunidade não tinha 6 milhões. Mas ajuntou. E fez isso pedindo doações a empresas, fazendo pequenas rifas, criando pequenos eventos beneficentes, solicitando apoio financeiro aqui e ali. E cada um deu um pouco de si, seja em dinheiro ou em trabalho, e a ponte que permitia entrar e sair de Nova Roma foi reerguida em 138 dias, restaurando o Direito de Ir e Vir dos moradores.
Neste domingo, 8, passando por lá e vendo a nova ponte, lembrei daquele livro do Goethe onde o doutor Fausto se encontra com o diabo e lhe pergunta: “quem sois vós?”. E o diabo responde: “eu sou a parte da energia que o mal pretende e o bem sempre cria”.
Nova Roma não aceitou o mal. A enchente derrubando a ponte do Rio das Antas era para virar tudo em choro, lágrima e derrota. Mas a comunidade insuflada pela Honra Coletiva, ultrapassou os limites e sozinha reergueu a ponte a um custo que deveria envergonhar as “contas” dos políticos e empreiteiros que se aproveitam da desgraça coletiva para encher os bolsos de dinheiro.
Não lembro das empreiteiras e deputados e governador terem pedido desculpas pelo “orçamento” que apresentaram. Não lembro. Mas não vem ao caso. Um dia, cedo ou tarde, a comunidade superará a farsa dos políticos que nos mantêm como escravos. Nova Roma é um exemplo grandioso.
Atravessando a ponte, então, bem feliz entramos em Nova Roma. E fomos direto para La Prima Vendemmia, sentir o aroma de pão assado na hora, o sabor do grostoli, dos biscoitos, cuca com uva e geleia, do queijo, do salame, da copa, da polenta brustolada, do suco de uva, vinho, café, chá, torresmo e o recém inventado tortei frito.
A festa tinha de tudo e (milaaaagre!) tu podias comer uva de graça e a vontade, apreciando os jogos na moda antiga, serrando madeira, fazendo a pisa da uva, observando as nonas trançando para fazer chapéu de colono. E, se “parla italiano”, bater um papo com as nonas.
Tinha de tudo na La Prima Vendemmia. E o que mais tinha era a simpatia contagiante dos ítalo-brasileiros.
É um povo receptivo e agradabilíssimo, que sabe sorrir, que sabe falar, que tem alegria em interagir com pessoas. E é um povo que, como a ponte bem mostrou, “não se entrega”.
A La Prima Vendemmia deste ano acabou. Mas se programe. Ano que vem tem mais. E uma cidade romântica e bela com essa merece sempre ser visitada.
(Por Alan Caldas – Editor)
FOTOS
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Lá embaixo aparece a ponte que caiu e que, por força própria, os ítalo-brasileiros de Nova Roma reconstruíram dando exemplo ao Brasil
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Por 20 reais as pessoas podiam ter a experiência de fazer a “pisa da uva”, tal qual era feita antigamente. Entre música e muitas palmas e gritos, o momento é eletrizante
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O sorriso e a alegria dos ítalo-brasileiros de Nova Roma é contagiante. É um povo lindo por inteiro
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Evaristo Anghinoni, Douglas Pasuch (prefeito na época da reconstrução da ponte) e Vander Fiorese são do Conselho Fiscal do grupo Amigos de Nova Roma, grupo que estava na Reconstrução da Ponte sobre o Rio das Antas e que foi levada pela enchente
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A novidade do ano foi o tortei frito, que é o tortei normal levado ao óleo. Come-se com diversos molhos