Por Alan Caldas (Editor)
Anos 80. Seminário e debate na OAB-RS, em Porto Alegre.
O homem à esquerda é o doutor Raimundo Faoro, meu conterrâneo lá de Vacaria e, então, Presidente Nacional da Ordem dos Advogados do Brasil.
O doutor Faoro se tornou um ícone da liberdade durante os anos de chumbo do pós-1964. Era um intelectual lúcido, calmo, profundo, autor do livro Os Donos do Poder.
Nessa noite, aí da foto, na sede da OAB em Porto Alegre, debatíamos com empolgação a necessidade de o Brasil encerrar o governo militar e chamar imediatamente uma Assembleia Nacional Constituinte.
Eu, no fogo da juventude, sonhava e defendia uma Constituinte pura e popular, o poder emanando do povo. O doutor Faoro, mais experiente, defendia uma Constituinte mista.
Perdemos ambos, como o futuro provou, e foram os deputados e seus patrões lobistas que redigiram a nova carta magna.
Naquela noite, a intermediadora foi a doutora, professora, antropóloga e socióloga Ellen Gracie, que no ano 2000 se tornaria a primeira mulher a ser ministra do Supremo Tribunal Federal.
Tanto o doutor Raimundo Faoro quanto eu e a doutora Ellen Gracie lutávamos através de palavras pela redemocratização do Brasil, pela volta de eleições diretas em todos os níveis, pelo retorno do Habeas Corpus, pelo direito de associação e, eu, sobretudo lutava pela liberdade de imprensa.
Todos queríamos a anistia ampla, geral e irrestrita. O folder que tenho na mão ali na foto era sobre isso. Eu que o distribuía.
A noite foi memorável.
E o tempo andou. O Estado brasileiro se modificou.
A liberdade veio, nos trazendo alegrias e, tristemente confesso, algumas decepções pelo que vimos ocorrendo.
Eu havia esquecido desse encontro. Na época eu vivia pela Regra dos 30 Segundos. E quando se vive intensamente, muitas coisas grandes e belas que se viveu ou se fez acabam ficando perdidas nos grotões da memória.
Achei a foto. Reencontrei a memória. E junto me veio uma saudade imensa do doutor Raimundo Faoro e da força intelectual e doçura da doutora Ellen.
Sinto saudades também “daquele Alan”. Era um Alan tão jovem e agitado, tão destemido e sonhador e que deixei lá no passado com seu bigodão de Frederico Nietzsche e sua Regra de 30 Segundos para dizer “auf wiedersehn” a seja lá o que fosse.