Por Alan Caldas (Editor)
Hoje pela manhã fui buscar um micro-ondas na Eletro Sinos, ali na avenida Florestal, e sentadinha na cadeira estava a Ellen. É a primeira vez que nos encontramos e, quando me viu, já de longe ela me chamou e disse:
– Eu trabalho aqui, óh.
Aquele rostinho. Aquela voz amistosa e amigável. Aquele desejo de conversar. Mas, sobretudo, aqueles olhos azuis claríssimos, imediatamente me trouxeram à lembrança o nosso adorável e saudoso amigo Sílvio Klein, o “Pepino”, uma das pessoas mais maravilhosas e afetuosas que nossa cidade já produziu.
Olhei para a pequenina Ellen e sorri. Ela sorriu de volta. E já foi me mostrando um presente que a “vó Sonia” havia dado para ela.
Eu cumprimentei o Cristiano, pai dela e que, segundo me disse certa vez o Pepino, nasceu “no ano em que o Jornal Dois Irmãos foi inaugurado”. Comecei a falar com ele, mas a pequena e linda Ellen queria conversar.
Então, me chamou a atenção para a letra que estava fazendo num pequenino pedaço de papel. E, em seguida, quase sem respirar, engatou outro assunto, me mostrando a roupa que estava usando. Se levantou e ficou de pé na cadeira. Mostrou a saia. Pegou na manga da blusa para destacar o tecido. E seguiu falando. E cada vez em que eu ia me dirigir ao Cristiano, ela me mostrava outro assunto.
Me mostrou uma foto 18X24 dela, que estava na parede, e rindo me fez ver que ela aparecia com as mãos cheias de tinta. Foi uma brincadeira na creche, ela disse. E já me lembrou que estuda na Bons Amigos, da FADI. E como eu a seguir me virei para o Cristiano, pedindo o que queria, ela aumentou um tonzinho a mais na voz e me disse que o cachorro da avó Sonia “matou todas as galinhas dela”.
Não há quem resista a um assunto desse. E perguntei “Como?”. Ela repetiu, “é, o cachorro da vó matou as galinhas dela”. E o Cristiano interveio, respondendo que o cachorro da dona Sonia havia matado 30 galinhas dela.
Aí não tinha mais o que fazer. Ficamos ali eu e a senhorita Ellen, de 3 ou 4 anos, suponho, que já foi falando que “quando crescer” vai estudar na Escola Estadual 10 de Setembro, porque sempre que passa ali vê “os grandes”. E seguiu me mostrando coisas e me contando fatos e lembrando um e outro assunto. E eu olhando para ela e o Pepino, avô da Ellen, na minha mente lá do Céu me sorria aquele sorriso amigo e aquela forma adorável que ele tinha de tratar as pessoas.
Finalmente consegui pegar o que tinha ido buscar, e perguntei ao Cristiano se ele e a Franciele estão ensinando a Ellen a falar alemão. “Nur ein bisschen”, ele respondeu, “só um pouquinho”. Mas me disse que a Ellen “já nasceu com cidadania alemã”.
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Tem dias que você acorda dentro daquele, como disse Frederico Nietzsche, “eterno retorno”, onde as tantas coisas e problemas e medos e angústias e incertezas desta vida te massacram, te amassam e te fazem quase duvidar da alegria da vida.
Mas aí, do nada, um serzinho iluminado, lindo, amoroso e angelical como a Ellen te chama. Te toma e exige atenção. Te faz perguntas. Te conta tantas coisas “novas”, felizes, alegres e amorosas, que tu esqueces completamente todos os problemas. E então, o que era o “retorno do igual todos os dias”, some completamente da tua mente. Tu te renovas. E passas a ver que o futuro já chegou. Que o novo está aqui. E isso te dá forças para seguir guerreando.
O francês Henri Bergson dizia que o tempo não é uma sucessão de instantes. Ele é a “duração”. É um fluxo da consciência, onde passado, presente e futuro se interpenetram.
Eu pensei exatamente isso quando dei tchau para a querida Ellen. Já não era mais o mesmo Alan que havia entrado na Eletro Sinos. Algo ali e naquela conversa com a Ellen mudou meu pensamento.
Abanei para ela, na saída. Ela me abanou de volta. E juro, mas juro que vi na porta o meu amigo Pepino, sorrindo aquele riso discreto e adorável dele, e me dizendo “até a próxima, doutoooor”, como sempre falava.
Entrei no carro. Me olhei no espelho retrovisor. Balancei a cabeça, sorrindo. E ganhei meu dia.